segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Vírgula nas Orações Subordinadas Adverbiais Temporais

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Este pequeno artigo visa fazer uma análise do uso da vírgula nas Orações Subordinadas Adverbiais Temporais em matérias jornalísticas retiradas da mídia digital (internet). Para a análise, será usada a teoria conforme Fernandes Jr. (2007).

Será definida como Oração Subordinada Adverbial Temporal (OSAT) aquela cujo fato refletido for a resposta para a pergunta “quando?” aplicada ao verbo da Oração Principal. Um “fato” é um sistema de relações entre seres. O tempo, o lugar e o comportamento são seres na composição dos fatos.

Conforme Fernandes Jr. (2007), usa-se a vírgula, que é um sinal gráfico aplicado nas estruturas morfossintática, sintagmática e sintática para demarcar o início de uma Oração Subordinada Adverbial Temporal.

Na seção “Mundo” do site Folha Online, de 03/11/2008, em matéria intitulada “Uribe chama de cúmplice das Farc o diretor da ONG Human Rights Watch”, encontra-se a seguinte passagem (aqui, já com os verbos sublinhados e os Períodos divididos):

Uribe acusou o ativista chileno durante uma reunião com indígenas / que protestam desde o dia 14 de setembro, / quando denunciaram violações de direitos humanos pela força pública, / a qual acusam de assassinar três nativos durante as manifestações.

Para uma melhor análise, convém dividir a Oração da seguinte forma:

Oração Principal: Uribe acusou o ativista chileno durante uma reunião com indígenas.
Oração Subordinada Adjetiva: que protestam desde o dia 14 de setembro.
Oração Subordinada Adverbial Temporal: quando denunciaram violações de direitos humanos pela força pública.
Oração Subordinada Adjetiva: a qual acusam de assassinar três nativos durante as manifestações.

Neste caso, pode-se notar a incidência da vírgula indicando o início de uma OSAT. Entretanto, o mesmo não acontece no caso a seguir, retirado da página de notícias do UOL (Universo On-line), em análise de 03/11/2008 intitulada “ Como Obama passou de azarão a favorito”: “Barack Obama era um azarão na disputa presidencial / quando lançou sua candidatura na escadaria do capitólio de Illinois, num dia gélido de fevereiro de 2007.

Oração Principal: Barack Obama era um azarão na disputa presidencial.
Oração Subordinada Adverbial Temporal: quando lançou sua candidatura na escadaria do capitólio de Illinois, num dia gélido de fevereiro de 2007.

Há, neste caso, uma mudança na “regra” usada pela autora do texto: a Oração Subordinada Adverbial Temporal não tem seu início indicado pela vírgula, mas o Adjunto Adverbial “num dia gélido de fevereiro de 2007” leva, mesmo não sendo necessário.

Na seção “podcasts” do Folha Online, em matéria de 03/11/2008 intitulada “Mercado já esperava fusão do Unibanco; ouça economista”, encontra-se: “O professor explica / que a credibilidade do Unibanco foi abalada, na semana passada, / quando sua ação ficou entre R$ 4 e R$ 5.

Oração Principal: O professor explica.
Oração Subordinada Substantiva Objetiva Direta: a credibilidade do Unibanco foi abalada, na semana passada.
Oração Subordinada Adverbial Temporal: quando sua ação ficou entre R$ 4 e R$ 5.

Houve, portanto, o uso da vírgula para indicar o início da OSAT, mas, por outro lado, é desnecessário o uso desta para indicar o início do Adjunto Adverbial “na semana passada”, em “a credibilidade do Unibanco foi abalada, na semana passada.” Nota-se, nestes dois últimos casos, a preocupação do autor do texto quanto à oralidade, ou seja, as vírgulas são usadas para indicar possíveis “pausas” na leitura.

Na mídia em geral, serão inúmeros os exemplos de um uso não-lógico (ilógico?) da vírgula. Seja pela obediência a "manuais de estilo", seja pela oralidade, seja por desconhecimento, o fato é que mesmo aqueles que deveriam ensinar esse assunto nas universidades não o fazem.

- Darini

Bibliografia:

- FERNANDES JR. A. Dialética da Língua Portuguesa. 1ª ed. São Paulo: LivroPronto, 2007.

3 comentários:

Klaus disse...

Bacana você fazer um artigo só sobre isso. Também sou de Letras e estive pesquisando bastante acerca desse assunto depois que minha professora escreveu "O fim aproxima-se, quando o progresso se esgota.". Achei um absurdo essa vírgula antes do "quando" e fui atrás. A maior parte das fontes que encontrei diz que essa vírgula é facultativa, dispensável, enquanto uma ou duas não dão essa opção (ou seja, dizem que não há vírgula). Mesmo assim, continuo horrorizado com ela; nunca a colocaria ao escrever uma frase como a que citei. As frases que você escolheu para analisar também são deveras interessantes. Eu estava aqui quebrando a cabeça tentando classificar cada oração e concluir se a vírgula fazia sentido ou não. E você? Usaria vírgula antes desse "quando" nas adverbiais temporais ? Gostaria de saber sua opinião a respeito. Klaus

Darini, o Valente disse...

Opa! Obrigado pelo elogio! ;)

Para o uso de vírgulas, uso o trabalho do Prof. Alcebíades Fernandes Jr, a "Dialética da Língua Portuguesa", em que ele descreve um modo racional para o uso da Gramática, incluindo, aí, todos os casos de vírgula.

Sou suspeito para falar, pois eu coloco vírgula para indicar o ínicio das Orações Temporais. No caso da frase que você cita, ela, para mim, tem mais jeito de conformativa, não? Algo como "Conforme o fim de aproxima, o progresso se esgota". Creio que ficaria melhor. Até mesmo um "O fim se aproxima; o progresso se esgota" soaria bem.

Abraço!

paradigmaglobalizado disse...

Não a vejo como conformativa, e sim como temporal mesmo, pois se inicia com "quando" e dá a idéia de que *no momento em que* o progresso acaba, começa a chegar o fim, mas sua análise faz sentido. Eu usaria (e uso sempre que escrevo) vírgula para separar as orações subordinadas adverbiais temporais quando elas iniciam a frase ou estão inseridas no meio, nunca no final. Pra mim, não faz sentido colocar vírgula antes desse tipo de oração quando ela vem no final, acho muito estranho. Inclusive, de acordo as fontes em que pesquisei, é a única posição em que se aceita a ausência da vírgula.

Esse "Dialética da Língua Portuguesa" está disponível para venda ? Fiquei curioso...

Obrigado pela resposta e sucesso com seu blogue.