quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tem só aqui neste andar?

***

Passeava eu pelo shopping, quando um homem, ao validar o cartão do estacionamento, perguntou exatamente isso à atendente:

- Tem só aqui neste andar?

- Como assim? - a mulher respondeu.

- Digo... tem outro lugar para pagar?

- Sim, bláblábláblá...

Se fosse um texto escrito, no lugar da fala, essa mesma ambiguidade poderia ter sido esclarecida com uma vírgula. Ao perguntar "Tem só aqui neste andar?", o homem pode dar a entender que "aqui" e "neste andar" são a mesma coisa. A vírgula entraria para separar dois Sintagmas diferentes:

"Tem só aqui neste andar?" significa "em todos os andares, só existe este local para o pagamento do cartão". O "aqui neste andar" é um só Sintagma, um Adjunto Adverbial de Lugar único. No fundo, "neste andar" é aposto de "aqui".

"Tem só aqui, neste andar?" significa "neste andar, tem só aqui para pagar o cartão, mas pode haver outros lugares em outros andares". O "aqui" e "neste andar" são dois Sintagmas distintos (por isso, há o uso da vírgula para separá-los).

Entretanto, alguns podem rebater dizendo: "não é o contrário? A vírgula não serve para explicar ou funcionar como aposto, como pode acontecer numa Oração Subordinada Adjetiva?" - Sim, respondo. Mas veja como, analisando a segunda oração, é possível deslocar o Sintagma, justamente por causa do uso da vírgula:

"Neste andar, tem só aqui?"
"Tem, neste andar, só aqui?"
"Tem só, neste andar, aqui?" - construção mais estranha, mas correta.

O "passeio" que o Sintagma "neste andar" pode fazer pela oração, quando do uso da vírgula, indica sua clara independência em relação ao "aqui" (sendo a recíproca verdadeira), o que acaba por reforçar a análise inicial.

- Darini

2 comentários:

Edward disse...

Gostei do post, deve dar tapa na cara de muita gente que usa a vírgula de forma errada ou acha que vírgula "é coisa de fresco".

Lembrei-me daquele email que circula por aí, com aquela pegadinha de se distribuir vírgulas a uma série de sentenças para ver quem vai ficar com a herança!

Artur disse...

boa mano!