sábado, 6 de junho de 2009

MUTO

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Interessante:

http://www.blublu.org/sito/video/muto.htm

O cara faz animações em paredes "engrafitadas". É isso que devemos chamar de arte urbana.

Juro que queria ter o dom do desenho e da pintura (mal e porcamente, tenho o da escrita... e olha lá).

Vendo esse vídeo, dá pra sentir a solidão e o caos da metrópole (seja ela qual for). Muito bom.

- Darini

domingo, 31 de maio de 2009

Sociedade em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

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Em seu "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis mostra um pouco da sociedade da época, criticando-a principalmente. Vale lembrar que Brás Cubas é um solteirão que busca o ápice da carreira política, e para que seja “bem visto” e “aceito”, deve ser casado.
Tratando-se da sociedade da época, Brasil-império tendo Rio de Janeiro como capital, os tipos nada se diferem daqueles do romantismo. O que faz a diferença é o modo como são mostrados e a crítica que Machado de Assis faz a suas ações. Algumas críticas que Machado faz à sociedade são:

Cap. 24 – Curto, mas alegre: Ao falar da “franqueza” de um defundo, Brás Cubas comenta: “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência...” – aqui podemos ver sua crítica à máscara social da época, pessoas fingindo ser o que não são escondendo seus defeitos e de outros, apenas para se sobressair perante a sociedade.

Cap. 31 – A Borboleta Preta: Em seu quarto, Brás Cubas é surpreendido por uma borboleta preta (pela superstição popular, traz má-sorte). Ele a sacudiu, ela pousou na vidraça; ele repete o gesto, ela pousa no quadro com a foto de seu pai. O personagem sente-se incomodado com o inseto, atira-lhe uma toalha e ele cai agonizante, em seguida morre.
Neste momento, Brás Cubas faz uma interessante análise do porquê de a borboleta estar ali e querer permanecer no local, como se ele fosse o “criador das borboletas”, e termina com a fala: “... não, volto à primeira idéia ; creio que para ela era melhor ter nascido azul”.
Ora, tendo Machado vivido numa época de escravidão, e sendo ele filho de uma negra, podemos deduzir que aqui ele usa metaforicamente a imagem da borboleta preta para dar sua crítica à escravatura. O “para ela era melhor ter nascido azul” pode ser traduzido, para a situação da época “era melhor ter nascido branco”, uma vez que a situação dos negros escravos no Brasil era desumana.

Cap. 68 – O Vergalho: Novamente, Machado faz uma crítica (mais aberta) contra a escravidão. Brás Cubas andava pelas ruas e vê um negro punindo outro com um vergalho. Ele se aproxima e percebe que aquele que pune, era escravo e fora solto, no passado, pelo pai de Brás Cubas. Eles se reconhecem, e Brás diz a ele que pare de punir o escravo; é prontamente atendido. A crítica também vai ao próprio negro que era livre, e que por uma razão ou outra arrumava para si um escravo, tratando-o da mesma forma como um senhor fizera com ele.

Cap. 84 – O Conflito: Machado critica o “acreditar por acreditar”, principalmente em relação ás crendices populares. Dona Plácida diz que um sapato não podia estar “voltado para o ar”, pois fazia mal. Ele diz: “Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação, e ela contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma coisa quando se falava em apontar uma estrela com um dedo; aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga”.

Cap. 123 – O Verdadeiro Cotrim: “... é indispensável casar, principalmente tendo ambições políticas. Saiba que na política, o celibato é uma remora.” – ele mostra que o político bem-sucedido deveria mostrar à sociedade seu sucesso no plano familiar, mesmo que fosse apenas para manter as aparências.

Cap. 145 – Simples Repetição: Brás Cubas já faz uma crítica aberta ao famoso “golpe do baú”. Neste capítulo, Dona Plácida de como dote 5 contos de réis a um sujeito que dela se fingira enamorado. Casaram-se e, depois de um tempo ele vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro.
Quincas Borba é um personagem muito interessante, pois mostra o tipo de pessoa que acredita em algo, constrói uma filosofia de vida e vai até o fim com seus planos, sejam eles certos ou não, tragam-lhe benefícios ou não. No começo ele se mostra pobre, trabalha sobre sua tese do “Humanitismo” que, conforme dizia, era a religião do futuro, recebe herança de um tio e termina a história novamente pobre, mas desta vez ele enlouquece, morrendo dessa forma.
Talvez a figura de Quincas seja também uma crítica de Machado ao fanatismo a alguma teoria ou religião, ou ao trabalho excessivo que leva à moléstia (Quincas pensava freqüentemente em suas teorias, tendo sempre uma resposta a tudo usando seus preceitos).

- Darini

domingo, 24 de maio de 2009

Minha carta de suicídio

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Interessante como a esmagadora maioria dos suicidas tem, necessariamente, de deixar uma carta explanando os motivos que a levaram a realizar tal feito. Analisando por alto, creio que a carta significa algo como: "olha, eu não morri acidentalmente, nem de causas naturais, tampouco fui assassinado por alguém. Se ainda resta sombra de dúvidas, saibam que eu mesmo me matei".

É esse (a grosso modo) o objetivo da carta de adeus. Entretanto, descrever as razões que levaram a pessoa ao suicídio cabe somente ao suicida em questão. Jogar a culpa em alguém é uma boa, pois, do ponto de vista do acusado, saber que fomos culpados pela desgraça de outro, acaba por nos deixar num estado-de-espírito extremamente abalado.

Como seria minha carta de adeus? Eu, se me suicidasse, diria sem mais delongas:


"Tô de saco cheio, e a culpa é de TODOS vocês. O último que sair, apague a luz."


- Darini

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Língua Portuguesa é machista?

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Não, caro leitor, a Língua Portuguesa não é "machista" (independente do fato de seus falantes o serem ou não). A regra é clara: diz mais ou menos que "quando há um grupo de seres de gêneros diferentes, devemos nos referir a eles pela declinação - chamemo-la assim - masculina". Isso acontece praticamente sempre no plural e, muitas vezes, no singular (veja como comecei o texto). O que fazemos, mesmo que inconscientemente, é aplicar, à construção, uma função NEUTRA mascarada de masculino.

Vejamos: muitas línguas, até hoje, mantém o gênero neutro em suas palavras. O inglês deve ser o mais notório, mas, nele, a coisa é fácil: rezam que "tudo o que é animal ou objeto é neutro". Exceções vão para animais de estimação ou navios grandes (que são femininos). O Latim tinha seus substantivos neutros, o alemão moderno os tem, o russo etc. Nos idiomas neolatinos, mantivemos apenas alguns resquícios do caso neutro. As palavras "isto", "aquilo" e "tudo" são espólio do neutro latino.

Historicamente, indo a tempos mais remotos do que o Latim, o gênero neutro deve ter surgido no ramo Indoeuropeu pela seguinte lógica: objetos de uso masculinos terão a declinação masculina, de uso feminino terão a declinação feminina e os de uso comum serão neutro. Simples, né? Sim, se considerarmos uma sociedade extremamente dividida no que concernia às funções específicas de cada gênero.

Acontece que, com o passar dos séculos, o gênero dos substantivos (no caso) perdeu essa ligação com o gênero daquele que "o possuía", e passou a ser considerado masculino, feminino ou neutro apenas por sua desinência final. Mais tempo passou, e o neutro foi sendo inutilizado. A declinação das palavras deste gênero foi se confundindo com as do masculino, fazendo com que a maioria das palavras neutras do Latim se tornassem masculinas no Português (e demais Línguas românicas).

No alemão, ao contrário, o artigo utilizado para o plural é o mesmo que o feminino singular. Portanto, se traduzirmos "Die Männer" (os homens) literalmente, teríamos "A" homens. Seria o alemão uma língua feminista?

Por outro lado, geralmente em discursos políticos recheados de demagogia, ouvimos construções como "Nobres deputados e deputadas" ou "Queridos professores e professoras", como se fosse extremamente necessário ressaltar que há um público de homens e mulheres em determinado auditório. Bobagem.

É por isso, leitoras, que as trato como "queridos leitores". Falta-me a desinência neutra para satisfazer aos afãs de ativistas mais exaltados (ou exaltadas?)

- Darini

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Humor em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

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A obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é repleta de um humor sarcástico, típico de Machado de Assis. Nesta obra, o autor (que se confunde com o personagem) brinca com a morte, já no prefácio vemo-lo dedicando as memórias ao primeiro verme que lhe roer as frias carnes do cadáver. Seguem alguns trechos em que podemos ver o toque de humor de Machado:


Cap 7 - O Delírio: neste capítulo, Brás Cubas relata como foi seu próprio delírio, dizendo que primeiramente tomou a forma de um barbeiro chinês que escanhoava um mandarim. Este, lhe pagava o serviço com beliscões e confeitos. Em seguida, transformou-se na Summa Theologica de São Tomas, e em seguida, tornando à forma humana, foi com um hipopótamo que o leva ao princípio dos séculos, ao Éden.


Cap 26 - O Autor Hesita: Averso ao casamento, Brás Cubas tem um diálogo com o pai, que lhe arranjara uma noiva:


“... quanto à noiva, deixe-me viver como um urso, que sou.”

- Mas os ursos casam-se, replicou ele.

- Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior...


Cap 33 - Bem-Aventurados os que não descem: Ele se pergunta o porquê de Eugênia ser uma mulher tão atraente e bonita e, ao mesmo tempo, ser coxa. “... Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”


Cap 49 - A Ponta do Nariz: Brás Cubas filosofa sobre o “vencer na vida” e a ponta do nariz; sobre o faquir que olha para a ponta de seu nariz para que veja a luz celeste. Termina com: “... há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.”


Cap 71 - O Senão do Livro: Segundo o autor, há nele o arrependimento de ter escrito o livro, pois este “é enfadonho, cheira a sepulcro...” porém, diz que o maior defeito do livro é o leitor, que tem pressa de envelhecer, ao passo que o livro anda devagar, e compara seu estilo de escrever como o ébrio, que ora vai à esquerda, ora à direita, para chegar num lugar.


Cap 92 - Um Homem Extraordinário: Machado usa o humor para criticar a política: “Saíra do Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviam com ele.”


Cap 103 - Distração: Brás Cubas nos ensina um modo de recear encarar os olhos de outrem: “Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recomendo este gesto às pessoas que recearem encararem a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.”


Ainda neste capítulo, ele relata como tirou uma mosca, com uma formiga agarrada à sua pata, do brinco de Virgília que caíra ao solo: “... então eu, com a delicadeza nativa de um homem de nosso século, pus na palma da mão aquele casal de mortificados, calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei que interesse podia haver num episódio tão mofino.” E ao salvar os dois insetos, termina com: “E Deus viu que isso era bom, como se diz na Escritura”.


Cap. 130 - Para Intercalar no capítulo 129: Aqui, Machado escreve todo o capítulo e termina dizendo: “Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo 129”. De fato, se o fizermos, veremos que este capítulo inteiro encaixa-se perfeitamente onde o autor sugere.


Cap. 136 - Inutilidade: Todo o capítulo é apenas um devaneio do autor; nele apenas há: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever aqui um capítulo inútil.”


Cap. 138 - A um crítico: Brás Cubas dirige-se a um crítico que por ventura possa estar lendo suas memórias, dizendo que “seu estilo já não é tão lesto como nos primeiros dias”, isto é, em cada fase da narração de sua vida, ele experimenta a sensação correspondente.


Cap. 139 - De Como Não Fui Ministro d'Estado: Talvez por nem ele mesmo saber os motivos da questão que intitula o capítulo, Brás Cubas o preenche com pontilhados, como que se deixasse ao leitor a resposta para aquilo.


- Darini

domingo, 17 de maio de 2009

GREAT ARE THE MYTHS - poema de Walt Whitman

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GREAT ARE THE MYTHS. Leaves of Grass (1867)
http://www.whitmanarchive.org/published/LG/1867/poems/139

1 GREAT are the myths—I too delight in them;
Great are Adam and Eve—I too look back and accept
them;
Great the risen and fallen nations, and their poets,
women, sages, inventors, rulers, warriors, and
priests.

2 Great is Liberty! great is Equality! I am their
follower;
Helmsmen of nations, choose your craft! where you
sail, I sail,
I weather it out with you, or sink with you.

3 Great is Youth—equally great is Old Age—great
are the Day and night;
Great is Wealth—great is Poverty—great is Expres-
sion—great is Silence.

4 Youth, large, lusty, loving—Youth, full of grace,
force, fascination!
Do you know that Old Age may come after you, with
equal grace, force, fascination?

5 Day, full-blown and splendid—Day of the immense
sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close, with millions of suns, and
sleep, and restoring darkness.

Neste poema, Walt Whitman "equaliza" tudo na vida: as grandes nações emergentes com as decadentes, os poetas, sábios, guerreiros... em uma poesia repleta de antíteses, que são sempre chamadas de "grande", Walt parece celebrar a grandeza da vida, mesmo com sua inconstância para melhor ou para pior (que nos leva a vencer ou aprender a superar obstáculos). Tratando da estrofe 5:

"Dia desabrochado e esplêndido... dia de Sol imenso, de ação, de ambição e risadas,
A noite segue de perto, com milhões de sóis, e sono, e treva restauradora".

Transcedentalista, Whitman descreve o dia como que falando da beleza do viver, cheio de alegria; ao mesmo tempo, fala da morte (a noite), que sempre acompanha a vida e traz consigo a "treva restauradora" (o suspiro final, ou descanso eterno). Além disso, a restauração nos sugere um novo acordar, que pode significar o despertar para uma nova vida nesse mundo ou um despertar espiritual num mundo novo e desconhecido.

- Darini

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Fim de férias...

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Pegar o infeliz que inventou o "dia útil", o que inventou o "horário comercial" (deve ter sido o mesmo) e enforcá-los com as próprias tripas.

- Darini

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Bill Maher

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Há tempos que venho acompanhando os vídeos desse cara, comediante da HBO (acho), ferrenho defensor da racionalidade contra o que chama de "religião organizada" (fez o documentário "Religulous"). Anti-Bush assumido, é o cara do tipo "ame ou odeie", pois coleciona simpatizantes e críticos. Um programa histórico seu foi quando ele tirou a força, de seu programa, os chamados "911 truthers", um povo que acredita que um dos prédios do WTC foi implodido deliberadamente pelo governo dos EUA:

"Bill Maher & 911 Truthers"

Faz parte do PETA, portanto é boa gente 8) . Mas, como ninguém é perfeito, ele acha que os irmãos Wright inventaram o avião:

Clique aqui - vale a pena ver, pois ele dá uma zoada com o Brasil e com o futebol.

E, aqui, ele cita o Brasil no quadro que chamava "Exit Strategy". Eram dicas de fuga caso o McCain ganhasse a eleição, morresse e a Sarah Pallin assumisse a presidência.

É um tipo de formador de opinião que, definitivamente, precisávamos ter no Brasil. Mas, conhecendo nosso povinho e a demagogia que o cerca, creio não duraria no ar nem por uma semana.

- Darini

sábado, 2 de maio de 2009

Ensaio sobre a Cegueira - Livro de José Saramago

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Em seu "Ensaio sobre a Cegueira", Saramago critica o rumo que as coisas tomaram nesta época em que vivemos. A "cegueira branca" que se alastra pela cidade, poupando apenas uma mulher, nos faz refletir sobre os problemas que, para a maioria de nós, passam despercebidos. Por quantas vezes, em nossa rotina "automatizada", não damos atenção, fazemos vistas grossas ou, simplesmente, ignoramos necessidades humanas que nos estão logo à frente? Num tempo em que tudo deve ser rápido, automático e produtivo, o ser-humano está deixando de ser humano. Estamos virando "robôs que comem e respiram". O outro? "Que eu tenho a ver com as necessidades do outro?" Essa é nossa cegueira branca.

Nessa cidade (ou mundo) que criou Saramago, todos são iguais. Não há nomes para os personagens e o modo como o autor os apresenta (através de alguma característica, profissão ou defeito) torna-os mais vivos em nossa memória. Podemos nos esquecer de vários nomes de personagens provenientes de clássicos lidos outrora, mas, com certeza, lembraremos da figura da "mulher do médico", "o velho da venda preta" e, até mesmo, do "cão das lágrimas" por muito tempo, até mesmo pelo fato de serem personagens do dia-a-dia, que podem ser encontrados em qualquer cidade real. A prostituta, o velho, o ladrão, o motorista de táxi, o menino abandonado... são eles que protagonizam o Ensaio. Não são heróis, mas pessoas marginalizadas sobre as quais o autor coloca os holofotes. Ele mostra que elas existem e que podem superar suas dificuldades, principalmente se houver uma mão amiga que os guie (mulher do médico).

A cegueira branca, de certa forma, atinge o leitor. Como pode uma jovem, às vistas da sociedade, apaixonar-se por um homem pobre, defeituoso e que não segue os padrões convencionais de beleza? Durante a leitura, não acreditamos que isso pudesse acontecer, mas o sentimento que nasce entre a rapariga de óculos e o velho da venda preta é maior do que qualquer "convenção" ou interesse superficial que possa surgir no coração humano. É algo profundo e que transcende qualquer estereótipo ou preconceito.

Pessoas do povo que se tornam mais iguais do que nunca, e têm de conviver em comunidade por tempo indeterminado aturando suas diferenças e defeitos. O governo? Este já está cego antes de tudo e de todos, pois fazem o que muitos governantes fazem: eliminam o mal, mas não sua causa. O modo desumano com que os "contaminados" são tratados realmente impressiona: tudo a eles é feito à distância. Um passo em falso, e a morte lhes era certa. O medo daqueles ditos diferentes causa uma celeuma coletiva: "teve contato com um cego? Está condenado!"

Os personagens precisam passar por uma revolução de vida para serem curados de sua cegueira. Provavelmente, é isso que José Saramago espera daqueles que lerem esta obra: quando vamos fazer nossa própria revolução de vida, e nos curar de nossa cegueira branca?

O "Ensaio sobre a Cegueira" é um ótimo livro, tanto na técnica utilizada pelo autor para escrevê-lo (parecendo um filme, tamanha a dinâmica do texto), assim como uma obra filosófica, para que pensemos no ser-humano como humano e liberto de sua cegueira coletiva.

- Darini

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Vou "na" cidade ver o Arcaísmo!

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Quer ver um professor "padrão" de Português ter um surto? É só escrever como fiz no título dessa postagem. Entretanto, como (quase) tudo na língua tem uma explicação, lá vai o porquê de, frequentemente, "errarmos" a regência do verbo "ir": é um arcaísmo que mantivemos. A grosso modo, Arcaísmo é uma forma antiga da língua que, por algum motivo, se manteve.

Pode-se ver, na canção d'amigo de Pero Amigo (trovador do século XIII), o seguinte trecho:

“Quand'eu un dia fui en Compostela

En romaria, vi ua pastor...”


Nota-se que o autor usa a preposição “en” (em) junto ao verbo “ir” no passado (fui), o que não está de acordo com a norma culta contemporânea, que diz ser correto o uso da preposição “a” (fui a Compostela). Porém, na linguagem coloquial e do dia-a-dia, usa-se, no Português não-padrão brasileiro, a preposição “em” (“Fui na casa de Maria”). Trata-se de um arcaísmo que se manteve, isto é, uma característica antiga da sintaxe da língua que se enraizou na fala popular.

- Darini

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Appendix Probi - parte III

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Apenas algumas reflexões em torno do assunto:

1- Durante as últimas décadas, tem-se discutido muito a respeito do que se deve aceitar como sendo uma real mudança linguística. Os erros normativos de hoje podem bem ser considerados norma culta daqui a cinquenta ou cem anos. Um exemplo? Lá vai:

Me falaram muito mal dessa cidade. (ao invés de Falaram-me muito mal dessa cidade). Presente em várias construções do Italiano e Espanhol, a norma culta do Português faz uma maior restrição ao início de oração com o pronome oblíquo. Este seria liberado, quando, por exemplo, houvesse uma palavra atrativa:

Ele disse que me leva ao parque. (ao invés de Ele disse que leva-me ao parque). Nesse caso, a conjunção "que" funciona como palavra atrativa e traz o pronome oblíquo para antes do verbo. Há outros casos.

O próprio Latim "ignorava" a ordem das palavras na sentença, pois, para o entendimento de suas funções sintáticas, havia as declinações. Portanto, poder-se-ia iniciar um período pelo objeto indireto, por exemplo, sem que este fosse confundido com o sujeito.

2- Esteja onde estiver, Probo não deve estar de todo chateado. Algumas palavras se mantiveram (ou quase) da forma como ele ensinou. Vejam:

sobrius non suber - "sóbrio" em português, uma forma bem mais parecida do que "suber".

angulus non anglus - "ângulo" em português (ainda não "engolimos o "u").

columna non colomna - "coluna" em português.

aquaeductus non aquiductus - "aquaduto" em português.

masculus non mascel - "másculo" em português.

meretrix non menetris - acertamos na meretriz!

3- Por outro lado, ele deve estar se retorcendo na cova, pois mantivemos os "erros" dos seus alunos:

formica non furmica - Tudo bem, podemos escrever e falar /formiga/, mas também podemos falar /furmiga/.

bravium non brabium - Vejam só! O pessoal já ficava "brabo" desde aquele tempo!

calida non calda - Essa é para os italianos! Algo é cálido em português, mas é "caldo" em italiano.

umbilicus non imbilicus - O imbigo também tem o "i" desde aquele tempo.

camera non cammara - Também vivemos confundindo a "Câmera de execuções".

socrus non socra - Não tem jeito... sogra é problema desde aqueles tempos.

Esses comentários são mais uma forma irônica de repararmos como a língua, de fato, muda. Seja por "preguiça" da língua (a da boca, parte do corpo) em pronunciar certas combinações, seja pela não aceitação da regra padrão por parte de uma determinada sociedade, seja por "imposição" das classes dominantes etc. Que vai mudar, é fato e uma questão de tempo.

Pobre Pobro. Ele que o diga...

- Darini

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Appendix Probi - parte II

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Conforme prometido, faço aqui uma breve análise dos casos de mudança Linguística do Appendix Probi. Separei os casos por similaridade, ou seja, tentei agrupá-los conforme a "causa" da alteração do fenômeno fonético.

Obviamente, comecei analisando os mais fáceis. Não são todos que listo aqui, pois alguns tomam um tempo considerável de estudo. Vi alguns sítios de Filologia que contêm essa análise mais completa, mas, claro, não os li, pois quero descobrir por mim mesmo.


Caso 1 - Enfraquecimento da vogal u:

speculum non speclum
masculus non masclus
vernaculus non vernaclus
articulus non articlus
vetulus non veclus
vitulus non viclus
baculus non vaclus

Nos sete casos acima, ocorreu o mesmo fenômeno lingüístico: o enfraquecimento e conseqüente desaparecimento da vogal u. No caso de baculus > vaclus, ocorreu uma mudança fonética comum, em que v > b (também há casos em que b > v). Essa mudança pode ser percebida em palavras como aventura (port.); adventure (ing.); abenteuer (alem.).

angulus non anglus
iugulus non iuglus

Nos dois casos acima, houve enfraquecimento da vogal u de -gu-, e seu consequente desaparecimento.

capitulum non capiclum - mais uma mudança {tul} > {tlu} > {clu}


vapulo non baplo - ocorreu a mudança como no caso de baculus > vaclus. O u torna-se átono, até seu desaparecimento. Em seguida, ocorre a mudança v > b, por influência de outro fonema labial (p).


Caso 2 - Iodização:

calcostegis non calcosteis - iodização do g, mesmo efeito que ocorre com Regis > rei.

Caso 3 - Ditongação:

vacua non vaqua
vacui non vaqui

Nos dois casos acima, houve ditongação do hiato ua. Isso aconteceu pelo enfraquecimento fonético da vogal u. O contrário também ocorre, como nos casos abaixo:

equs non ecus
coqus non cocus
coquens non cocens
coqui non coci

Caso 4 - Nasalização:

cultellum non cuntellum
Hercules non Herculens
occasio non occansio

Caso 5 - Mudança fonética por influência de vogal pretônica:

suboles non subolis
vulpes non vulpis
lues non luis
deses non desis
reses non resis
vepres non vepris
fames non famis
clades non cladis
Syrtes non Syrtis
aedes non aedis
sedes non sedis
proles non prolis

Os doze casos acima mostram o mesmo fenômeno: uma vogal tônica anterior (pretônica) enfraquece a próxima vogal (nesses casos, faz com que haja a transformação e > i). É o mesmo fenômeno que acontece hoje em dia com a transformação menino > *mininu.

Caso 6 - Erros / Perda de declinação dos casos latinos:

formica non furmica - enfraquecimento de uma vogal (o) por influência de outra (i).

barbarus non barbar - perda da desinência de declinação.

acre non acrum - erro na desinência de declinação.

pauper mulier non paupera muli[er] - erro na desinência de declinação (no caso de pauper > paupera).

monofagia non monofagium - erro na desinência de declinação.

doleus non dolium - erro na desinência de declinação.

tristis non tristus - erro na desinência de declinação.

vico castrorum non vico castrae - erro na desinência de declinação.

ip[se] non ip[sus] - erro na desinência de declinação.

terraemotus non terrimotium - neste caso, é provável que, primeiramente, tenha havido um erro na desinência de declinação: terraemotus > *terraemotium e, em seguida, o enfraquecimento do ditongo ae por influência do i, fazendo terraemotus > *terraemotium > terrimotium.

socrus non socra - erro na desinência de declinação.

palumbes non palumbus - erro na declinação

Caso 7 - Erro ortográfico:

tersus non tertus - trata-se de erro ortográfico, e não de mudança fonética. No Latim, a consoante t, ao preceder as vogais i e e, corresponde com o grafema \s\. A correção se deu, neste caso, pois a consoante, em tertus, estava sendo correspondida com o grafema \s\ antes da vogal u, o que não era verdade.

adhuc non aduc - erro ortográfico, uma vez que não há fonema que corresponda com o grafema \h\ neste caso.


Caso 8 - Mudanças diversas num fonema por influência de outro:

carcer non car[car] - ocorreu analogia: um fonema já existente na palavra é repetido: {car}.

bravium non brabium - ocorreu a mudança fonética em que v > b.

vinea non vinia - enfraquecimento da vogal e por influência do i (em vinea)

umbilicus non imbilicus - enfraquecimento da vogal u por influência do i tônico.

c[a]elebs non celeps - influência do som do ditongo ae e fortalecimento do som de b.

senatus non sinatus - enfeaquecimento da vogal e por causa do a tônico.

pegma non peuma - vocalização da consoante g.

tabes non tavis
plebes non plevis

Nos dois casos acima, ocorreu a mudança fonética em que b > v. A transformação e > i ocorreu, provavelmente, por efeito do e aberto /e/ em ple- e, em tabes, por efeito da vogal a.

necne non necnec - ocorreu analogia: um fonema já existente na palavra é repetido.


Como disse, é meu ponto de vista do que pode ter, linguisticamente, acontecido nesses casos. Caso encontre algum erro, é só avisar e poderemos analisar por outra maneira.

- Darini

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Appendix Probi

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O Appendix Probi é uma listagem de 227 verbetes, cuja intenção seria a de corrigir os erros de grafia do Latim. Estima-se que foi escrito por volta do século III a.C. e seu autor é desconhecido (ou não, pois Probi = do Probo). Em todo caso, valeu a intenção de tentar manter a norma culta do Latim.

Mais para frente, farei algumas análises de mudança linguística, tomando um ou outro exemplo abaixo. Esta relação foi tirada do site da Universidade da Pennsilvania, que, por sua vez, tirou de uma publicação de 1922 chamada Sprachlicher Kommentar zur vulgärlateinischen Appendix Probi, de W. A. Baehrens.

Meio óbvio citar, mas lá vai: a forma correta é a que está à esquerda do
non.

porphireticum marmor non purpureticum marmur
tolonium non toloneum
speculum non speclum
masculus non masclus
vetulus non veclus
vitulus non viclus
vernaculus non vernaclus
articulus non articlus
baculus non vaclus
angulus non anglus
iugulus non iuglus
calcostegis non calcosteis
septizonium non septidonium
vacua non vaqua
vacui non vaqui
cultellum non cuntellum
Marsias non Marsuas
cannelam nun canianus
Hercules non Herculens
columna non colomna
pecten non pectinis
aquaeductus non aquiductus
cithara non citera
crista non crysta
formica non furmica
musivum non musum
exequiae non execiae
gyrus non girus
avus non aus
miles non milex
sobrius non suber
figulus non figel
masculus non mascel
lanius non laneo
iuvencus non iuvenclus
barbarus non barbar
equs non ecus
coqus non cocus
coquens non cocens
coqui non coci
acre non acrum
pauper mulier non paupera muli
carcer non car
bravium non brabium
pancarpus non parcarpus
Theophilus non Izophilus
monofagia non monofagium
Byzacenus non Bizacinus
Capse[n]sis non Capressis
catulus non catellus
[catulus non callus]
doleus non dolium
calida non calda
frigida non fricda
vinea non vinia
tristis non tristus
tersus non tertus
umbilicus non imbilicus
turma non torma
caelebs non celeps
ostium non osteum
Flavus non Flaus
cavea non cavia
senatus non sinatus
brattea non brattia
cochlea non coclia
cochleare non cocliarium
palearium non paliarium
primipilaris non primipilarius
alveus non albeus
glomus non glovus
lancea non lancia
favilla non failla
orbis non orbs
formosus non formunsus
ansa non asa
flagellum non fragellum
calatus non galatus
digitus non dicitus
solea non solia
calceus non calcius
iecur non iocur
auris non oricla
camera non cammara
pegma non peuma
cloaca non cluaca
festuca non fis
ales non
facies non fa
cautes non c
plebes non plevis
vates non vatis
tabes non tavis
suppellex non superlex
apes non apis
nubes non nubs
suboles non subolis
vulpes non vulpis
palumbes non palumbus
lues non luis
deses non desis
reses non resis
vepres non vepris
fames non famis
clades non cladis
Syrtes non Syrtis
aedes non aedis
sedes non sedis
proles non prolis
draco non dracco
oculus non oclus
aqua non acqua
alium non aleum
lilium non lileum
glis non iris
delirus non delerus
tinea non ti
exter non extraneus
clamis non clamus
vir non vyr
virgo non vyrgo
virga non vyrga
occasio non occansio
caligo non calligo
terebra non telebra
effeminatus non imfimenatus
botruus non butro
grus non gruis
anser non ansar
tabula non tabla
puella non poella
balteus non baltius
fax non facla
vico capitis Africae non vico caput Africae
vico tabuli proconsolis non vico tabulu proconsulis
vico castrorum non vico castrae
vico strobili non vico trobili
teter non tetrus
aper non aprus
amycdala non amiddula
faseolus non fassiolus
stabulum non stablum
triclinium non triclinu
dimidius non demidius
turma non torma
pusillus non pisinnus
meretrix non menetris
aries non ariex
pe non pessica
dysricus
opobalsamum non ababalsamum
mensa non mesa
raucus non ra[u]cus
auctor nun autor
auctoritas non autoritas
ip non ip
linteum non lintium
a< > non < >a
terraemotus non terrimotium
noxius non noxeus
coruscus non scoriscus
tonitru non tonotru
passer non passar
anser non ansar
hirundo non herundo
obstetrix non ops
capitulum non capiclum
noverca non novarca
nurus non nura
socrus non socra
neptis non nepticla
anus non anucla
tondeo non detundo
rivus non rius
imago non < >
pavor non paor
coluber non colober
adipes non alipes
sibilus non sifilus
frustum non frustrum
plebs non pleps
garrulus non garulus
parentalia non parantalia
caelebs non celeps
poples non poplex
locuples non locuplex
robigo non rubigo
plasta non blasta
bipennis non bipinnis
hermeneumata non erminomata
tymum non tumum
strofa non stropa
bitumen non butumen
mergus non mergulus
myrta non murta
zizipu(s) non zizup(u)s
iunipirus non (iu)niperus
tolerabilis non toleravilis
basilica non bassilica
tribula non tribla
viridis non virdis
constabilitus non constab[i]litus
Sirena non Serena
musium vel musivum non museum
labsus non lapsus
orilegium non orolegium
hostiae non ostiae
Februarius non Febrarius
clatri non cracli
allec non allex
rabidus non rabiosus
tintinaculum non tintinabulum
Adon non Adonius
grundio non grunnio
vapulo non baplo
necne non necnec
passim non passi
numquit non nimquit
numquam non numqua
nobiscum non noscum
vobiscum non voscum
nescioubi non nesciocobe
pridem non pride
olim non oli
adhuc non aduc
idem non ide
amfora non ampora

- Darini

domingo, 26 de abril de 2009

Minha Buenos Aires querida...


Alguns lugares conseguem nos impressionar a cada nova visita. É sem dúvidas que digo isso de Buenos Aires (ou BsAs, como é chamada por lá).

Essa foto, tirei por volta de umas nove da noite, indo do centro comercial da Rua Florida até meu "hostel". O obelisco fica na Avenida 9 de Julho, a principal da cidade (e mais larga do mundo, diga-se de passagem).

À noite (principalmente), Buenos Aires respira cultura. Passando pela Avenida Corrientes, vemos teatro ao lado de teatro, livrarias e sebos abertos... isso, por volta das 10-11 horas da noite. Pessoas congestionando as ruas e as calçadas, panfletos de espetáculos e peças sendo distribuídos a cada 10 metros. Estar do lado de fora e ver essas cenas já é um espetáculo por assim dizer.

Entretanto, é sem dor nenhuma na consciência que digo não ter ido a nenhum desses eventos. Afinal, que desculpa eu teria para voltar? ;)

- Darini

domingo, 12 de abril de 2009

Charles Bukowsky e Darini sobre a arte de escrever

******

Disse o velho safado:

"Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente-a-frente com a morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço nas trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha..."

*****

E digo mais: o escrever te faz ser um "deus": você cria e destrói mundos, pessoas, personagens, ideias... o que sai da sua caneta, do seu lápis ou do toque no teclado é como o sopro de inspiração que vai atingir pessoas que você nem conhece. É mágico, é sobrenatural.

Acredito que, SEMPRE, em todas as ocasiões, o escritor coloca sua alma, sua mente à mercê dos leitores. Cabe, sim, a eles, desvendar esses "hieróglifos" da melhor maneira que lhes convier e, por que não, SE lhes convier.

- Darini

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Eurico, o Presbítero - Análise do Foco Narrativo

EURICO, O PRESBÍTERO
ANÁLISE DO FOCO NARRATIVO

Tipo de Narrador:

Em Eurico, o narrador é onisciente intruso, isto é, o ele sabe tudo sobre o personagem: suas ações, pensamentos e sentimentos. Nessa obra, podemos destacar as seguintes passagens que comprovam essa dedução:


O Narrador sabe dos fazeres e do passado do personagem Eurico:


Capítulo 2:

“O presbítero Eurico era o pastor da pobre paróquia de Cartéia. Descendente de uma antiga família bárbara, gardingo na corte de Witiza, depois de Ter sido tiufado ou milenário do exército visigodo, vivera os ligeiros dias da mocidade no meio dos deleites da opulenta Toletum. Rico, poderoso, gentil, o amor viera, apesar disso, quebrar a cadeia brilhante da sua felicidade. Namorado de Hermengarda, filha de Fávila, duque de Cantábria, e irmão do valoroso e depois tão célebre Pelágio, o seu amor fora infeliz.”

O Narrador relata os sentimentos de Eurico por causa da desilusão amorosa:

Capítulo 2:

“A melancolia que o devorava, consumindo-lhe as forças, fê-lo cair em longa e perigosa enfermidade, e, quando a energia de uma constituição vigorosa o arrancou das bordas do túmulo, semelhante ao anjo rebelde, os toques belos e puros do seu gesto formoso e varonil transpareciam-lhe a custo através do véu de muda tristeza que lhe entenebrecia a fronte. O cedro pendia fulminado pelo fogo do céu.”

É o narrador quem revela, pela primeira vez, a existência do Cavaleiro Negro:

Capítulo 10:

“Neste momento, por uma das pontes já desertas lançadas na noite antecedente sobre o Chrissus soava um correr de cavalo à rédea solta. Alguns soldados que andavam mais perto da margem volveram para lá os olhos. Um cavaleiro d’estranho aspecto era o que assim corria. Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraça e o saio; o próprio ginete murzelo: lança, não a trazia.”

O narrador fala dos sentimentos de Hermengarda pouco antes desta perceber que era Eurico quem estava com ela:

Capítulo 18:

“E aqui, deixando pender a cabeça sobre o peito, pareceu voltar ao sentimento da realidade; mas aquela espécie de terror febril que lhe haviam gerado no espírito os transes, qual mais doloroso, porque sucessivamente passara, tornou-se a apossar-se dela. Favoreciam-no o lugar, a hora, o silêncio. Hermengarda alevantou de novo os olhos desvairados e, firmando-se no rochedo, tentava erguer-se.”

Voz do Narrador

Em sua maior parte, a voz do narrador em Eurico é em terceira pessoa, isto é, os verbos e pronomes são colocados concordando com a 3ª pessoa gramatical. Isso significa que o narrador não participa da história, pois se assim o fosse, ele se incluiria nos fatos e teríamos a colocação dos verbos e dos pronomes em 1ª pessoa também. Dentre vários exemplos no livro, podemos destacar o seguinte trecho como sendo o de terceira pessoa:

Capítulo 18:

“Mas quando Eurico se lembrou de que, porventura, isto era sonho; de que podia ser que essa alma não passasse na vida tão vazia e solitária como ele julgava, e que esse coração, que poucas horas antes pulsara tão perto do seu, batia, por acaso, por outrem, sentiu o suor frio manar-lhe da fronte.”

- Darini

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O Primo Basílio e o Realismo

*****

Trecho (Cap. IV):


Basílio, ao pé de Luísa, ia calado. Que horror de cidade! - pensava. - Que tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão; subia, à noite, no seu faéton, os Campos Elísios devagar...




No trecho acima, Eça de Queirós faz uma ferrenha crítica (assim como em vários outros trechos da narrativa, como ao falar das touradas da Espanha) ao atraso da cidade de Lisboa, e, por conseguinte, de Portugal.

Sendo a crítica e a denúncia duas características do realismo, podemos ver, em várias oportunidades, o protagonista, na figura de Basílio, exaltar outras cidades européias, sobretudo Paris, e falar da “feiura” e atraso de Lisboa em relação àquelas.


- Darini

domingo, 22 de março de 2009

Pobre Iulia Faustilia...

****************

O Império Romano foi (e causou) uma grande miscelânia linguística. A lógica era simples: invadir um novo território e impor-lhe a língua. Os povos invadidos, claro, aprendiam o novo idioma do modo que melhor lhes conviesse, pois não havia infraestrutura escolar nem mesmo para os romanos "legítimos".

Como eram poucos os que sabiam escrever e, dentre esses, nem todos seguiam o latim padrão, estudiosos usam tais "erros" para estudar as variações no latim vulgar. Um desses exemplos pode ser visto através das famosas "tabuinhas execratórias" (
Tabellae defixionum), que nada mais eram do que "orações de maldizer" que as pessoas faziam a seus inimigos.

Um dos exemplos mais divulgados nos cursos de letras é o que segue:


"Te rogo que infernales partes tenes, commendo tibi Iulia Faustilia, Marii filia, ut eam celerius abducas et ibi in numerum tu abias."

Cuja tradução, conforme retirada do site especializado http://www.filologia.org.br/ , é:

"
A ti, que dominas as regiões infernais, peço e encomendo Júlia Faustila, filha de Mário, para que a leves mais rapidamente e conserves aí no número dos mortos"

Alguns comentários no que diz respeito ao texto (sem esquecer o amor demonstrado pela pobre Iulia):

a- Presença Próclise: "te rogo...". Um texto em Português, escrito nessas condições, faria com que qualquer gramático desejasse a seu autor o mesmo destino de Iulia;

b- Ausência do prefixo {en} na palavra commendo, como acontece em inúmeras outras palavras do Latim (o prefixo veio a ser afixado mais tarde);

c- Ausência da letra "J" em Iulia: sendo uma "criação" celta, é óbvio que essa letra não existisse no Latim;

d- Ausência do "H" na palavra abias (hás / tenhas).

São apenas algumas obviedades. Não fiz nenhuma análise das conjugações verbais ou declinações, mas já notamos um claro exemplo das variações da língua Latina.

- Darini

terça-feira, 17 de março de 2009

O Apanhador no Campo de Centeio - livro de J. D. Salinger

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Único. Diferente. Provocativo. Forte.

São esses, dentre muitos outros, aqueles adjetivos com que podemos caracterizar a obra “O Apanhador no Campo de Centeio”, em que o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Durante toda a trama, temos o mundo (ou, mais precisamente, a cidade de Nova Iorque) mostrado de acordo com o ponto de vista de um adolescente. Seus amores, seus ódios, seus conflitos psicológicos... tudo foi escrito de tal maneira que aquele mais desavisado, ao ler a trama, pode mesmo pensar que foi escrito por um jovem da idade de Holden.

A linguagem (dando destaque especial para a tradução1) é simples, as gírias e palavreado sem preocupação normativa, às vezes repetitivos, nos colocam mais próximos do personagem principal, que é o narrador de suas aventuras. Os períodos são curtos e as conjuções parecem ter sido esquecidas em muitos momentos da história, remetendo-nos ao estilo de texto da época surrealista. Provavelmente, a intenção do autor (mantida, felizmente, pelos tradutores) foi de dar ao leitor a sensação de “assistir” à mente do protagonista enquanto as inúmeras ações vão acontecendo. Assim como os pensamentos nos surgem de repente, às vezes sem uma ligação “suave” de um com o outro, da mesma forma é o estilo em que a obra nos é colocada. Outra análise em relação a essa peculiaridade pode ser a de que o escritor nos quisesse mostrar a rapidez como as coisas aconteciam na vida, no falar e na mente do jovem: fato após fato, decisão após decisão.

Os tipos encontrados por Holden no decorrer da história são aqueles estereótipos que encontramos em todos os tempos e em qualquer lugar do mundo: o colega de quarto que pensa ser o “Don Juan” conquistador, o pentelho que mexe nas coisas dos outros sem permissão, o velho professor que ainda se preocupa em dar conselhos aos mais jovens e ficam abismados com a (aparente?) indiferença destes, o motorista de táxi grosseiro, a simpática freira, a prostituta, os cabarés, seus artistas e freqüentadores, as amigas / namoradas com quem vive as dúvidas e conflitos do amor, a família... enfim, em sua caminhada pela grande cidade, o jovem se depara com tipos encontrados por nós mesmos no dia-a-dia, e os comentários que faz destes, unidos aos pensamentos que ele tem, é aquilo que todos nós, de uma forma mais “agressiva” ou não, diríamos ou pensaríamos, se passássemos pelas mesmas situações.

“O Apanhador no Campo de Centeio” causa, naquele que o lê, uma mistura interessante de sensações: tristeza, pena, raiva, compaixão, um pouco de humor e crítica. Crítica a alguns valores enraizados na cultura ocidental como um todo, como a educação: Holden não conseguia se adaptar ao tradicionalismo dos colégios pelos quais passava. Curiosamente, havia passado apenas em inglês, disciplina que, em suas literaturas, requer uma visão maior do mundo, e não apenas a análise literal do escrito pelo escrito.

O jovem protagonista tem uma grande estima e amor pela família, sobretudo por seus irmãos: Phoebe (a mais nova), D.B., o escritor que se “prostituiu” ao aceitar trabalhar em Hollywood e Allie, já falecido, com quem parecia ter uma ligação transcedental. O modo com que esse irmão é citado nos comove, parecendo ser, em certas ocasiões, um “amparo” para o protagonista. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer” e, ao cumprir sua meta, agradecia-o.

Outro trecho que merece menção é aquele em que o título do livro é mencionado pela 2ª vez. Erroneamente, Holden canta uma música dizendo “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio...” nesse momento, é corrigido por Phoebe, que diz que o certo seria “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio...” O fato é que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade. O que parecia um adolescente rebelde “sem causa”, era na verdade alguém que queria se libertar de padrões sociais e regras.

Com um final inesperado (que tem uma ligação interessante com o início da trama), “O Apanhador no Campo de Centeio” é uma obra que merece ser lida, relida e discutida, principalmente pelos elementos psicológicos explorados por Salinger. Contemporânea, ela nos faz pensar em como cultivar nosso próprio “campo de centeio”.


1- A edição lida foi a da Editora do Autor - 13ª edição.

- Darini

terça-feira, 10 de março de 2009

Latim

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Antes de falarmos sobre o latim, eis alguns dados cronológicos para nos situarmos no tempo:

Fundação de Roma - Marco inicial: 753 A.C.
Realeza: Origens até 509 A.C.
República: de 509 A.C. a 27 A.C.
Império: de 27 A.C. a 476 D.C.

O “nascimento” de Roma, pela lenda de Rômulo e Remo, tem um caráter mais mítico do que histórico, mas considera-se a data de 753 a.C. como a fundação da cidade. Até o século VIII a.C., Roma foi habitada por camponeses vindos de Alba Longa, a pátria dos ancestrais de Rômulo, segundo diz a lenda. Depois, houve o estabelecimento de sabinos e etruscos.

Não há muita documentação relativa aos primeiros séculos de Roma. Documentos históricos muito posteriores a essa data dão uma visão controversa e confusa de um período marcado por guerras e revoltas. Nesse tempo, Roma era apenas uma pequena cidade, entre as muitas que formavam a Liga Latina. Considera-se o marco inicial da literatura latina a tradução da Odisséia, feita por Lívio Andronico, por volta de 240 a.C.

O período de República em Roma (509-27 a.C.) funcionava da seguinte forma: no lugar do rei, o conjunto da cidadania elegia anualmente dois cônsules. O descontentamento da plebe para com esse regime originou uma violenta luta, pois apenas os chamados patrícios, isto é, cidadãos abastados, poderiam concorrer à magistratura.

A literatura Latina teve seu ápice durante o chamado período ciceroniano (70-43 a.C.), representado por César, Cícero, Terêncio, Catulo e Lucrécio.

O fortalecimento de Roma, militarmente, se deu após a invasão gaulsesa, ocorrida por volta de 390 a.C., que então deixou Roma destruída. Cientes de sua vulnerabilidade e fraqueza, a cidade procurou se preparar para futuras investidas. A partir daí, veio a marcha expansionista, com suas primeiras conquistas sendo sobre os samnitas (341, 326 e 304 a.C.) da Itália meridional, e sobre Tarento (272 a.C.), um centro cultural grego ao sul da Península Itálica.

A expansão territorial trouxe consigo a expansão da língua de Roma, o Latim. De um simples dialeto (junto ao Umbro e o Osco), o Latim veio a se tornar uma língua de dominação, a língua oficial daquele que foi um dos maiores impérios que a humanidade já conheceu.

Vale lembrar que o Latim não era imposto pelos dominadores. O ensino da língua era incentivado pelos romanos através da construção de escolas, ao estilo romano, nos territórios conquistados. O incentivo também se dava pelo status que possuía aquele que falava a língua do império.

Latim Clássico x Latim Vulgar

Na história do Latim, houve uma divisão entre a forma erudita (clássica / literária), que era falada pelos escritores, nobres e pessoas cuja classe social e educação eram elevadas; e a forma vulgar, usada pelas pessoas mais simples. Esta segunda forma de Latim não era prioritariamente escrita, pois na hora de escrever, as pessoas procuravam fazê-lo de em Latim Clássico.

Hoje, é possível recuperar formas do Latim Vulgar através de gramáticas latinas que apontavam o modo normativo correto de escrever e o incorreto, geralmente popular. Na literatura, personagens incultos eram retratados com seu modo próprio de falar, fazendo com que mais uma fonte do “vulgarismo” seja conhecida.

Saindo da área literária, as diferentes formas escritas deixadas em outros tipos de materiais (metal, madeira etc) também podem nos indicar as diferentes formas de dialetação. E, por fim, empréstimos feitos do latim a línguas não-latinas também são uma fonte de conhecimento de alguns vocábulos do Latim Vulgar.

Características do Latim

- Ausência de acentos (grave, agudo, circunflexo)
- Não há artigos (o, a, um, uma)
- Não há palavras oxítonas
- Há 4 conjugações verbais
- Há 5 grupos de substantivos
- Apresenta 2 classes de adjetivos
- Apresenta 3 gêneros: masculino, feminino e neutro
- Dois números: singular e plural

Substantivos masculinos em Português, Italiano e Espanhol: frutos da 2ª declinação.

Vejamos a tabela de Substantivos da 2ª declinação:



SINGULAR

PLURAL

NOMIN

Us

Er

Ir

Um

I

I

I

A

VOCAT

E

Er

Ir

Um

I

I

I

A

GENIT

I

I

I

I

Orum

Orum

Orum

Orum

DATIVO

O

O

O

O

Is

Is

Is

Is

ABLAT

O

O

O

O

Is

Is

Is

Is

ACUSAT

Um

Um

Um

Um

Os

Os

Os

A


MASC

MASC

MASC

NEUTRO

MASC

MASC

MASC

NEUTRO

Podemos notar que os substantivos masculinos eram, no dativo e no ablativo singulares, terminados em “o”, e no acusativo plural, em “os”. Já o nominativo e vocativo plural eram terminados em “i”. Fazendo uma análise com o Português e Espanhol modernos, temos a maioria das palavras masculinas terminadas em “o”, e seu plural em “os”. Em italiano, o masculino singular é, em sua maioria, terminado em “o” e o plural é terminado em “i”.

O que temos, hoje, nessas línguas, nada mais é do que o resultado da dialetação do latim vulgar, que “facilitou” a regra original da “língua-mãe”, modificando-a de acordo com a necessidade dos distintos grupos de falantes.

- Darini

Bibliografia:

- ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Latina.
- Cardoso, Zélia de Almeida. A Literatura Latina.