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sábado, 18 de setembro de 2010

O Apanhador no Campo de Centeio x Dois Irmãos

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Semelhanças entre os narradores de “Dois Irmãos” e “O Apanhador no Campo de Centeio”

No que concerne a perda e/ou busca de identidade do narrador, podemos fazer algumas comparações que aproximam a obra “Dois Irmãos” e a “O Apanhador no Campo de Centeio”. Nesta análise, fizemos uma breve explanação do enredo desta última, assinalando esses pontos em comum.

Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Já em “Dois Irmãos”, Nael é pobre e filho da empregada da família, Domingas, e desconhece quem seja seu pai. No entanto, a trama acontece no mesmo período do Apanhador (anos 40/50).

Em relação aos ambientes vividos pelos narradores, o primeiro mostra a cidade de Nova Iorque sempre de acordo com seu ponto de vista; já em Dois Irmãos, o narrador faz uma detalhada descrição de Manaus, sua cidade natal, mas embora viva “in loco” a maior parte das tramas, outra lhe era contada por Halim ou de Domingas. De certa forma, podemos dizer que nesta trama toda a história é contada a partir do ponto de vista do narrador, já que ele reproduz o que ouviu de outros, dando a sua versão e seu entendimento dos fatos.

A perda de identidade é distinta, mas presente em cada obra: em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o protagonista-narrador procura sua identidade pessoal, psicológica. Ele faz o tipo “adolescente rebelde”, ou “rebelde sem causa”, mesmo sendo de uma família de posses. O problema de Holden é a conflituosa relação dele com o mundo e tempo em que vive: ele não se identifica com nenhum outro tipo de personagem a não ser com sua irmã mais nova, Phoebe (podendo representar a inocência) e com um irmão já falecido, de quem guarda muitas saudades (Allie). Neste caso, a identificação pode se dar por causa do sentimento da perda do ente querido, pois o ser-humano tende a guardar apenas as boas memórias daqueles que já se foram. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer”; e ao cumprir sua meta, agradecia-o.

A busca da identidade dentro de si mesmo, a repulsa dos padrões desse mundo e a identificação pela inocência pode ser vista na cena em que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade.

Já em “Dois Irmãos”, Nael busca sua identidade cultural e genealógica: sabe apenas quem é sua mãe, mas tem dúvidas em relação à paternidade. Embora ele (e o leitor) possam acreditar 98% que Omar seja seu pai por conta da violência cometida contra a empregada, ainda nos resta uma sombra de dúvida antes de afirmarmos com certeza de quem ele descende.

Assim como Holden procurava a liberdade, Nael também o faz. Uma vez que a descoberta de sua paternidade se encerra, e se fosse ele um membro daquela família, sua condição de empregado se elevaria a de membro da família, além de que a descoberta lhe traria liberdade espiritual e psicológica, uma vez que a maior dúvida, o segredo que mais lhe intrigava estariam solucionados.

Ao final da trama (mais especificamente nas duas últimas páginas), o narrador parece ter “canalizado” seus sentimentos para que a liberdade viesse de outra forma: no encontro final deste com Omar, não há diálogo: ambos apenas se encaram, até que o segundo vai embora. Esse silêncio de ambos, principalmente por parte de Nael, pode significar que ele deixou de querer saber a verdade, pois esta poderia lhe trazer mais sofrimento do que a dúvida, pois certos de que Nael e Omar não se gostavam, a certeza da condição pai e filho entre eles poderia resultar num desfecho mais trágico entre os dois; portanto, a eterna incerteza da verdade era o sinal de sua liberdade.


- Darini


domingo, 20 de setembro de 2009

Um conto de meu "Liber Mortis"

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Abaixo, segue um conto (sem título) de meu Liber Mortis:

O profeta olhou no fundo dos meus olhos,‭ ‬deu um suspiro e começou a chorar copiosamente.‭ ‬Cada lágrima derrubada por ele era como se uma lança acertasse meu coração.‭ ‬Ele parecia saber dos males que eu causava.‭

Procurei afastar-me por um tempo,‭ ‬fui para o alto da colina e meditei...‭ ‬estranhas imagens oníricas se mostravam em minha mente:‭ ‬pessoas que passaram por minha vida reapareciam...‭ ‬tudo de uma forma tão confusa...

Deitei,‭ ‬dormi,‭ ‬sonhei,‭ ‬sofri e acordei.‭ ‬Voltei e não mais encontrei o profeta.‭ ‬Onde será que ele se escondeu‭? ‬Por que fez isso comigo‭?
Fui em diração à floresta,‭ ‬onde pude sentir a energia dos galhos e folhas balançando ao vento,‭ ‬assim como aquela vinda do canto dos pássaros e pureza do rio.

Continuei andando,‭ ‬seguindo a trilha que levava à caverna.‭ ‬No meio do caminho havia uma bifurcação que daria ao vilarejo.‭ ‬Preferi a primeira opção.

Olhei para o céu e vi uma solitária nuvem passeando feliz pelo azul...‭ ‬formosa nuvem,‭ ‬ofuscava até o Sol‭! ‬Beleza passeando pelo infinito.

Infinito‭? ‬Quem disse‭? ‬Quem prova que todo o Universo não é um grão de areia,‭ ‬parte de um mundo muito maior‭? ‬Intrigante como o homem tenta entender o universo,‭ ‬mas não consegue compreender a si mesmo.
A mente tem,‭ ‬dentro de si,‭ ‬todo o Universo como esse grão de areia.‭ ‬É infinita,‭ ‬mágina,‭ ‬sobrenatural.‭ ‬É divina.

A sapiência e o conhecimento parecem ser mais importantes do que o instinto...‭ ‬deveriam sê-lo‭? ‬Uma tartaruga pode viver mais de‭ ‬100‭ ‬anos dependendo apenas de seu instinto.‭ ‬Já o homem,‭ ‬mata milhares,‭ ‬usando sua inteligência e conhecimento.‭ ‬Bom...‭ ‬inteligência,‭ ‬não.‭ ‬Conhecimento,‭ ‬talvez.

Continuo andando,‭ ‬vejo outra nuvem se aproximando da primeira.‭ ‬Enfim,‭ ‬uma companhia‭! ‬Aproximam-se cada vez mais,‭ ‬até formarem uma só nuvem,‭ ‬numa comunhão que homens e mulheres não conseguem ter entre si.

Ao longe,‭ ‬a caverna.‭ ‬Vejo um vulto passando lá dentro,‭ ‬tudo estava muito escuro.‭ ‬Fico com medo.‭ ‬O suor desce pelo meu rosto e minhas pernas ficam bambas.‭ ‬O que será aquilo‭?

Fico distante...‭ ‬observo atentamente.‭ ‬Um frio percorre minha espinha.‭ ‬Medo...‭ ‬medo...

De repente,‭ ‬algo começa a ficar visível:‭ ‬uma ursa carrega seu filhote para fora da caverna.‭ ‬Ela o coloca no chão,‭ ‬lambe-o,‭ ‬mas ele parece não reagir.‭ ‬O que será que lhe poderia ter acontecido‭?

Ficou por lá durante alguns minutos...‭ ‬ou horas...‭ ‬nem sei quanto tempo se passou...‭ ‬deu,‭ ‬então,‭ ‬um rugido que mais pareceu um choro,‭ ‬e que fez toda a floresta se silenciar em reverência.‭ ‬Virou as costas e voltou à caverna.

Criei coragem e me aproximei...‭ ‬o ursinho tinha todos os músculos do corpo duros como pedra.‭ ‬Um sentimento de perda inundou meu coração e fez-me voltar alguns passos.‭ ‬Olhei para a cena e chorei...‭ ‬chorei copiosamente.

Em prantos,‭ ‬senti uma mão tocar meu ombro.‭ ‬Olho para trás e vejo o profeta,‭ ‬que me olhava com um misto de compaixão e alívio.‭ ‬Fez um sinal positivo com a cabeça,‭ ‬fazendo com que eu‭ ‬pudesse entender tudo aquilo.‭ ‬Olho para frente,‭ ‬e o corpo do ursinho havia sumido...‭ ‬olho para trás,‭ ‬e o profeta não estava mais lá.

- Darini

domingo, 13 de setembro de 2009

Livros de Minha Autoria (por enquanto)

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Independentemente, publiquei meus escritos pelo Clube de Autores. A quem interessar, o endereço é esse:

http://clubedeautores.com.br/search?qt=&qa=rodrigo+darini+valente&q=&commit=Buscar

Abaixo, segue um pouco do que é cada um:

Liber Mortis: Trata-se de 27 contos que fazem refletir sobre os aspectos da morte, e, consequentemente, sobre a vida. Embora seja um tema mórbido e evitado por muitas pessoas, vem balancear a atual onda do “tudo azul” que muitos livros retratam (autoajuda, manual do pai, manual da mãe etc.). É uma obra, considero, para REFLEXÃO.

Miscelâneas Linguísticas: Esta é uma obra para quem gosta de estudar a Língua, seus aspectos, mudanças e fenômenos. Principais assuntos abordados:

a) Morfemas (Raízes e Afixos), com os quais faz um pequeno trabalho de Morfologia comparativa. Para isso, usa exemplos de textos antigos como Beowulf, A Canção dos Nibelungos, o Evangelho de São Mateus em Gótico etc. Também apresenta essas Raízes em palavras do dia-a-dia, desde as sacras {hag} até as profanas {boc} e {car}.

b) O Português Arcaico, em que mostra as principais mudanças da Língua Portuguesa desde o século XI até hoje.

c) O Latim - algumas informações sobre esse idioma também são apresentados, incluindo o "Appendix Probi", que foi uma das primeiras gramáticas escritas.

d) Análise da "Canção dos Nibelungos", que foi o primeiro documento escrito "em Alemão".

e) Demais análises Linguísticas, num vocabulário de fácil entendimento e acessível a todos os públicos.

A Vela Sacra: Luca, um garoto de nossa dimensão, é levado por Gimmos, representante de um mundo mágico e perigoso, para encontrar a Vela Sacra, um objeto divino que trará paz àqueles reinos. A missão não é tão fácil, pois ainda têm de enfrentar as artimanhas de Zhark, um poderoso demônio que também almeja a posse de tal item. Após lutas, dragões, elfos e magias, o leitor encontra um final, no mínimo, surpreendente.

Se você é um editor que deseja publicar algum deles ou é um empresário querendo patrocinar, contate-me! ;)

- Darini

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Os narradores de “Dois Irmãos” e “O Apanhador no Campo de Centeio”

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Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Já em “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, Nael é pobre e filho da empregada da família, Domingas, e desconhece quem seja seu pai. No entanto, a trama acontece no mesmo período do Apanhador (anos 40/50).

Em relação aos ambientes vividos pelos narradores, o primeiro mostra a cidade de Nova Iorque sempre de acordo com seu ponto de vista; já em Dois Irmãos, o narrador faz uma detalhada descrição de Manaus, sua cidade natal, mas, embora viva “in loco” a maior parte das tramas, outra lhe era contada por Halim ou por Domingas. De certa forma, podemos dizer que, nesta trama, toda a história é contada a partir do ponto de vista do narrador, já que ele reproduz o que ouviu de outros, dando a sua versão e seu entendimento dos fatos.

A perda de identidade é distinta, mas presente em cada obra: em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o protagonista-narrador procura sua identidade pessoal, psicológica. Ele faz o tipo “adolescente rebelde” ou “rebelde sem causa”, mesmo sendo de uma família de posses. O problema de Holden é a conflituosa relação dele com o mundo e tempo em que vive: ele não se identifica com nenhum outro tipo de personagem a não ser com sua irmã mais nova, Phoebe (podendo representar a inocência) e com um irmão já falecido, de quem guarda muitas saudades (Allie). Neste caso, a identificação pode se dar por causa do sentimento da perda do ente querido, pois o ser humano tende a guardar apenas as boas memórias daqueles que já se foram. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer” e, ao cumprir sua meta, agradecia-o.

A busca da identidade dentro de si mesmo, a repulsa dos padrões desse mundo e a identificação pela inocência pode ser vista na cena em que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade.

Já em “Dois Irmãos”, Nael busca sua identidade cultural e genealógica: sabe apenas quem é sua mãe, mas tem dúvidas em relação à paternidade. Embora ele (e o leitor) possam acreditar 98% que Omar seja seu pai por conta da violência cometida contra a empregada, ainda nos resta uma sombra de dúvida antes de afirmarmos com certeza de quem ele descende.

Uma coisa chega mais perto aos 100% de certeza: sua origem é uma mistura indígena e árabe, uma vez que os principais “suspeitos” são os da família de Halim. Mesmo que não houvesse essa dúvida em relação à paternidade ser de um dos três, podemos afirmar categoricamente que a cultura a que Nael foi submetido foi uma mistura das supracitadas, uma vez que ele conviveu nesse meio. O ambiente (Manaus) influenciou na cultura do imigrante (árabe) e essa influência será passada àqueles que convivem nesse meio.

Assim como Holden procurava a liberdade, Nael também o faz. Uma vez que a descoberta de sua paternidade se encerra e, se fosse ele um membro daquela família, sua condição de empregado se elevaria à de membro da família, além de que a descoberta lhe traria liberdade espiritual e psicológica, uma vez que a maior dúvida, o segredo que mais lhe intrigava, estaria solucionada.

Ao final da trama (mais especificamente nas duas últimas páginas), o narrador parece ter “canalizado” seus sentimentos para que a liberdade viesse de outra forma: no encontro final deste com Omar, não há diálogo: ambos apenas se encaram, até que o segundo vai embora. Esse silêncio de ambos, principalmente por parte de Nael, pode significar que ele deixou de querer saber a verdade, pois esta poderia lhe trazer mais sofrimento do que a dúvida, pois certos de que Nael e Omar não se gostavam, a certeza da condição pai e filho entre eles poderia resultar num desfecho mais trágico entre os dois; portanto, a eterna incerteza da verdade era o sinal de sua liberdade.

- Darini

domingo, 31 de maio de 2009

Sociedade em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

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Em seu "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis mostra um pouco da sociedade da época, criticando-a principalmente. Vale lembrar que Brás Cubas é um solteirão que busca o ápice da carreira política, e para que seja “bem visto” e “aceito”, deve ser casado.
Tratando-se da sociedade da época, Brasil-império tendo Rio de Janeiro como capital, os tipos nada se diferem daqueles do romantismo. O que faz a diferença é o modo como são mostrados e a crítica que Machado de Assis faz a suas ações. Algumas críticas que Machado faz à sociedade são:

Cap. 24 – Curto, mas alegre: Ao falar da “franqueza” de um defundo, Brás Cubas comenta: “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência...” – aqui podemos ver sua crítica à máscara social da época, pessoas fingindo ser o que não são escondendo seus defeitos e de outros, apenas para se sobressair perante a sociedade.

Cap. 31 – A Borboleta Preta: Em seu quarto, Brás Cubas é surpreendido por uma borboleta preta (pela superstição popular, traz má-sorte). Ele a sacudiu, ela pousou na vidraça; ele repete o gesto, ela pousa no quadro com a foto de seu pai. O personagem sente-se incomodado com o inseto, atira-lhe uma toalha e ele cai agonizante, em seguida morre.
Neste momento, Brás Cubas faz uma interessante análise do porquê de a borboleta estar ali e querer permanecer no local, como se ele fosse o “criador das borboletas”, e termina com a fala: “... não, volto à primeira idéia ; creio que para ela era melhor ter nascido azul”.
Ora, tendo Machado vivido numa época de escravidão, e sendo ele filho de uma negra, podemos deduzir que aqui ele usa metaforicamente a imagem da borboleta preta para dar sua crítica à escravatura. O “para ela era melhor ter nascido azul” pode ser traduzido, para a situação da época “era melhor ter nascido branco”, uma vez que a situação dos negros escravos no Brasil era desumana.

Cap. 68 – O Vergalho: Novamente, Machado faz uma crítica (mais aberta) contra a escravidão. Brás Cubas andava pelas ruas e vê um negro punindo outro com um vergalho. Ele se aproxima e percebe que aquele que pune, era escravo e fora solto, no passado, pelo pai de Brás Cubas. Eles se reconhecem, e Brás diz a ele que pare de punir o escravo; é prontamente atendido. A crítica também vai ao próprio negro que era livre, e que por uma razão ou outra arrumava para si um escravo, tratando-o da mesma forma como um senhor fizera com ele.

Cap. 84 – O Conflito: Machado critica o “acreditar por acreditar”, principalmente em relação ás crendices populares. Dona Plácida diz que um sapato não podia estar “voltado para o ar”, pois fazia mal. Ele diz: “Disseram-lhe isso em criança, sem outra explicação, e ela contentava-se com a certeza do mal. Já não acontecia a mesma coisa quando se falava em apontar uma estrela com um dedo; aí sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga”.

Cap. 123 – O Verdadeiro Cotrim: “... é indispensável casar, principalmente tendo ambições políticas. Saiba que na política, o celibato é uma remora.” – ele mostra que o político bem-sucedido deveria mostrar à sociedade seu sucesso no plano familiar, mesmo que fosse apenas para manter as aparências.

Cap. 145 – Simples Repetição: Brás Cubas já faz uma crítica aberta ao famoso “golpe do baú”. Neste capítulo, Dona Plácida de como dote 5 contos de réis a um sujeito que dela se fingira enamorado. Casaram-se e, depois de um tempo ele vendeu as apólices e fugiu com o dinheiro.
Quincas Borba é um personagem muito interessante, pois mostra o tipo de pessoa que acredita em algo, constrói uma filosofia de vida e vai até o fim com seus planos, sejam eles certos ou não, tragam-lhe benefícios ou não. No começo ele se mostra pobre, trabalha sobre sua tese do “Humanitismo” que, conforme dizia, era a religião do futuro, recebe herança de um tio e termina a história novamente pobre, mas desta vez ele enlouquece, morrendo dessa forma.
Talvez a figura de Quincas seja também uma crítica de Machado ao fanatismo a alguma teoria ou religião, ou ao trabalho excessivo que leva à moléstia (Quincas pensava freqüentemente em suas teorias, tendo sempre uma resposta a tudo usando seus preceitos).

- Darini

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Humor em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

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A obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é repleta de um humor sarcástico, típico de Machado de Assis. Nesta obra, o autor (que se confunde com o personagem) brinca com a morte, já no prefácio vemo-lo dedicando as memórias ao primeiro verme que lhe roer as frias carnes do cadáver. Seguem alguns trechos em que podemos ver o toque de humor de Machado:


Cap 7 - O Delírio: neste capítulo, Brás Cubas relata como foi seu próprio delírio, dizendo que primeiramente tomou a forma de um barbeiro chinês que escanhoava um mandarim. Este, lhe pagava o serviço com beliscões e confeitos. Em seguida, transformou-se na Summa Theologica de São Tomas, e em seguida, tornando à forma humana, foi com um hipopótamo que o leva ao princípio dos séculos, ao Éden.


Cap 26 - O Autor Hesita: Averso ao casamento, Brás Cubas tem um diálogo com o pai, que lhe arranjara uma noiva:


“... quanto à noiva, deixe-me viver como um urso, que sou.”

- Mas os ursos casam-se, replicou ele.

- Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa Maior...


Cap 33 - Bem-Aventurados os que não descem: Ele se pergunta o porquê de Eugênia ser uma mulher tão atraente e bonita e, ao mesmo tempo, ser coxa. “... Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”


Cap 49 - A Ponta do Nariz: Brás Cubas filosofa sobre o “vencer na vida” e a ponta do nariz; sobre o faquir que olha para a ponta de seu nariz para que veja a luz celeste. Termina com: “... há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.”


Cap 71 - O Senão do Livro: Segundo o autor, há nele o arrependimento de ter escrito o livro, pois este “é enfadonho, cheira a sepulcro...” porém, diz que o maior defeito do livro é o leitor, que tem pressa de envelhecer, ao passo que o livro anda devagar, e compara seu estilo de escrever como o ébrio, que ora vai à esquerda, ora à direita, para chegar num lugar.


Cap 92 - Um Homem Extraordinário: Machado usa o humor para criticar a política: “Saíra do Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviam com ele.”


Cap 103 - Distração: Brás Cubas nos ensina um modo de recear encarar os olhos de outrem: “Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recomendo este gesto às pessoas que recearem encararem a pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusíadas, outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado; é mais simples, exige menos esforço.”


Ainda neste capítulo, ele relata como tirou uma mosca, com uma formiga agarrada à sua pata, do brinco de Virgília que caíra ao solo: “... então eu, com a delicadeza nativa de um homem de nosso século, pus na palma da mão aquele casal de mortificados, calculei toda a distância que ia da minha mão ao planeta Saturno, e perguntei que interesse podia haver num episódio tão mofino.” E ao salvar os dois insetos, termina com: “E Deus viu que isso era bom, como se diz na Escritura”.


Cap. 130 - Para Intercalar no capítulo 129: Aqui, Machado escreve todo o capítulo e termina dizendo: “Convém intercalar este capítulo entre a primeira oração e a segunda do capítulo 129”. De fato, se o fizermos, veremos que este capítulo inteiro encaixa-se perfeitamente onde o autor sugere.


Cap. 136 - Inutilidade: Todo o capítulo é apenas um devaneio do autor; nele apenas há: “Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever aqui um capítulo inútil.”


Cap. 138 - A um crítico: Brás Cubas dirige-se a um crítico que por ventura possa estar lendo suas memórias, dizendo que “seu estilo já não é tão lesto como nos primeiros dias”, isto é, em cada fase da narração de sua vida, ele experimenta a sensação correspondente.


Cap. 139 - De Como Não Fui Ministro d'Estado: Talvez por nem ele mesmo saber os motivos da questão que intitula o capítulo, Brás Cubas o preenche com pontilhados, como que se deixasse ao leitor a resposta para aquilo.


- Darini