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sábado, 1 de maio de 2010

A Canção dos Nibelungos - parte 1

***

A Linguística e a Epopeia:

Uma Raiz muito comum nas Línguas Germânicas, {hag}, proveniente de *{kailos}, cujo significado é “santo”, também aparece de forma interessante no Gótico: háuheins significa louvar e háuhjan significa glorificar. Um exemplo interessante que já ocorria no Alemão Antigo é o nome próprio Hagen, retirado da primeira epopéia germânica, chamada “A Canção dos Nibelungos”. Embora seja o vilão da história, não seria de se estranhar que se tratasse mesmo da Raiz {hag} = santo, pois sua lealdade à rainha protagonista da trama o leva à morte. A análise desta Raiz encontra-se abaixo:

Tabela A - Derivados da Raiz *{kailo} > {hag}:

Idioma

Palavra

Raiz

Sufixo


Anglo-Saxão

Halig

{hal}

{ig}

Alemão

Heilig

{heil}

{ig}

Inglês

Holy

{ho}

{ly}

Holandês

Heilig

{heil}

{ig}

Norueguês

Hellig

{hell}

{ig}

Sueco

Helig

{hel}

{ig}

Aqui, temos mais dois exemplos de nomes próprios retirados da história:

Tabela B - Sigfried:

Raiz - *{PERD} > {PRI} > {FRI} = quebrar

Raiz - *{SEG} > {SI} > {SIEG} = vitória

Idioma

Palavra

Raiz

Sufixo

VT


Alemão Antigo

Sifride

{si}; {frid}

não há

{e}

Alemão Moderno

Siegfried

{sieg}; {fried}

não há

não há


Tabela C - Brunhild:

Raiz: {BRUN} (francês) = louro

Idioma

Palavra

Raiz

Sufixo

VT


Alemão Antigo

Prvnnhilde

{prvnn}

{hild}

{e}

Alemão Moderno

Brunhild

{brun}

{hild}

não há


Vê-se, a princípio, a metátase em *{perd} (i.e.) > {pri} e, em seguida, há um efeito consonantal inicial em {pri} > {fri}. Há também a perda da Vogal Temática, por assimilação, da palavra Sifride, quando passada do Alemão Antigo para o Alemão Moderno. Quanto à Raiz *{seg}, a mudança de e para i ocorre já no Gótico *sigus e no Anglo-Saxão sig, provavelmente por influência de uma vogal fechada final.

É muito interessante a preocupação semântica dos nomes pelo autor da trama. Nela, Siegfried tem claras as características do herói: disposto a conquistar a bela Kriemhild, vai ao reino dos burgúndios, na cidade de Worms, ameaçando os regentes de tomar-lhes os domínios. Com o passar da trama, contudo, Siegfried parece desistir da idéia e acaba tornando-se aliado de Gunther, o rei burgúndio (também pelo fato de que a irmã deste agradava ao jovem herói). Com a ajuda de Siegfried, o soberano consegue vencer os saxões e os dinamarqueses, além de conquistar a poderosa Brunhild rainha da Islândia.

Dono de uma força extraordinária, Siegfried tem um único ponto fraco: uma pequena região nas costas, pela qual é morto por Hagen. A morte do guerreiro invencível (Siegfried) nos remete às Raízes de seu nome: “a quebra da vitória”; a derrota daquele que sempre vencia.

Por outro lado, o BRUN (francês, que significa “louro”) é a descrição física padrão de uma rainha nórdica: a branca de olhos azuis com cabelos loiros. Vimos, nesses pequenos exemplos, a preocupação literária de quem escreveu a epopéia, ligando o valor semântico da palavra às características dos personagens.

- Darini

quinta-feira, 18 de março de 2010

O "eu" das Línguas Germânicas

***

Creio ser o I (eu) do Inglês muito mais relacionado ao Norueguês jag do que às outras formas Germânicas ik (Gótico, Holandês), ic (Anglo-Saxão) ou ich (Alemão), principalmente se relacionarmos ao som dessas palavras. Em Norueguês, pronuncia-se /yay/; em Inglês, /ay/. É mais difícil imaginar, portanto, a mudança ic > I (principalmente considerando que ic deva ser pronunciado /itch/.

Entretanto, considerando o Norueguês antigo, pode-se notar que ek é a primeira pessoa do singular - muito mais próximo às formas ik e ich e bem mais distante de jag e jog - este último do Sueco.

Ouvindo a pronúncia reconstituída de Beowulf, notamos, para ic, algo entre /itch/ (como pensava anteriormente) e /ik/. Provavelmente, devem haver casos específicos em que uma pronúncia ou outra fosse a mais usada. É provável que algum estudo (que eu desconheço) já tenha feito essa análise.

- Darini

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

As Raízes Linguísticas e a Literatura

***


Consideremos a história de um determinado povo. Depois, coloquemo-na na mente de um poeta ou escritor. Nasce a Literatura. Não caberá, aqui, falar pormenorizadamente de Gêneros Literários ou (ainda menos) fazer a Análise Literária de alguma obra. O que nos interessa, ao trabalharmos com a Morfologia aplicada na Literatura, é a observação de como as Raízes e seus valores Semânticos são apresentados.

É necessário ressaltar alguns exemplos que mostram como o poder da Palavra (em nosso caso, da Raiz) é importante no papel que os personagens desempenharão, mesmo que de forma implícita.

Raiz - *{DERK} (i.e.) > {DRAC} (grego) = serpente alada

Algumas Ocorrências:

Idioma

Palavra

raiz(is)

Sufixo

VT

Alemão

Drache

{drach}


{e}

Inglês

Dragon

{drag}

{on}


Holandês

Draak

{draak}



Norueguês

Drake

{drak}


{e}

Sueco

Drake

{drak}


{e}

Português

Dragão

{drag}

{ão}


Francês

Dragon

{drag}

{on}


Pelo Germânico Antigo *drako, proveniente do Indo-Europeu *{derk}. Presente nos contos mitológicos de várias culturas ancestrais, podemos notar a transformação por metátase (*{derk} > *{drek} > {drac}) nos principais idiomas modernos derivados do i.e., sejam Germânicos, como listados acima, sejam os Neolatinos: Dragon (Francês); Dragone (Italiano); Dragón (Espanhol) – todos vindos do Latim: Draco.

Raiz - *{KAILO} > {HAG}

Algumas Ocorrências:

Idioma

Palavra

raiz(is)

Sufixo

Anglo-Saxão

Halig

{hal}

{ig}

Alemão

Heilig

{heil}

{ig}

Inglês

Holy

{ho}

{ly}

Holandês

Heilig

{heil}

{ig}

Norueguês

Hellig

{hell}

{ig}

Sueco

Helig

{hel}

{ig}

Significado: Santo
Raízes: {HAG} (grego) = santo; *{KAILO} (i.e.)

Mais uma Raiz muito comum nas línguas Germânicas, {hag} também aparece de forma interessante no Gótico: háuheins significa louvar e háuhjan significa glorificar. Um exemplo interessante que já ocorria no Alemão Antigo é o nome próprio Hagen, retirado da primeira epopéia germânica, chamada “A Canção dos Nibelungos”. Embora seja o vilão da história, não seria de se estranhar que se tratasse mesmo da raiz {hag} = santo, pois sua lealdade à rainha protagonista da trama o leva à morte.

Aqui, temos mais dois exemplos de nomes próprios retirados da “A Canção dos Nibelungos”. São eles:

Raiz a - *{PERD} > {PRI} > {FRI}

Raiz b - *{SEG} > {SI} > {SIEG}

Idioma

Palavra

raiz(is)

Sufixo

VT

Alemão Antigo

Sifride

{si}; {frid}

Não há

{e}

Alemão Moderno

Siegfried

{sieg}; {fried}

Não há

não há

Significado: trata-se de um nome próprio

Aqui, há uma clara aglutinação de duas Raízes, a saber:

Raízes: {SIEG} (alemão) = vitória; {FRI} < {PRI} (latim / grego) = quebrar. Vemos, a princípio, a metátase em *{perd} (i.e.) > {pri} e, em seguida, há um efeito consonantal inicial em {pri} > {fri}. Há também a perda da Vogal Temática, por assimilação, da palavra Sifride, quando passada do Alemão Antigo para o Alemão Moderno. Quanto aa raiz *{seg}, a mudança de e para i ocorre já no Gótico *sigus e no Anglo-Saxão sig, provavelmente por influência de uma vogal fechada final.

Raiz - {BRUN}:

Idioma

Palavra

Raiz

Sufixo

VT

Alemão Antigo

Prvnnhilde

{prvn}; {hild}

não há

{e}

Alemão Moderno

Brunhild

{brun}; {hild}

não há

{e}

Significado: trata-se de um nome próprio
Raiz: {BRUN} (francês) = louro

É muito interessante a preocupação semântica dos nomes pelo autor da trama. Nela, Siegfried tem claras as características do herói: disposto a conquistar a bela Kriemhild, vai ao reino dos burgúndios, na cidade de Worms, ameaçando os regentes de tomar-lhes os domínios. Com o passar da trama, contudo, Siegfried parece desistir da idéia e acaba tornando-se aliado de Gunther, o rei burgúndio (também pelo fato de que a irmã deste agradava ao jovem herói). Com a ajuda de Siegfried, o soberano consegue vencer os saxões e os dinamarqueses, além de conquistar a poderosa Brunhild rainha da Islândia.

Dono de uma força extraordinária, Siegfried tem um único ponto fraco: uma pequena região nas costas, pela qual é morto por Hagen. A morte do guerreiro invencível (Siegfried) nos remete às raízes de seu nome: “a quebra da vitória”; a derrota daquele que sempre vencia.
Por outro lado, o BRUN (francês, que significa “louro”) é a descrição física padrão de uma rainha nórdica: a branca de olhos azuis com cabelos loiros. Vimos, nesses pequenos exemplos, a preocupação literária de quem escreveu a epopéia, ligando o valor semântico da palavra às características dos personagens.

- Darini

terça-feira, 28 de julho de 2009

As Raízes Linguísticas da Morte

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Única certeza, mas, mesmo assim, um dos maiores mistérios humanos, a morte mostra, linguisticamente, algumas variações nas Raízes cujos significados a ela nos remetem. Segundo Saussure, o pai da Linguística moderna, (2006, p. 216), "[...]chama-se Raiz ao elemento irredutível e comum a todas as palavras da mesma família". Ou seja, é o gene da palavra.

Aplicando isso ao assunto abordado, a Raiz mais usada e conhecida pelos falantes das Línguas Românicas é a Latina {mort}, oriunda do sânscrito {mor}, cujo significado é “falecimento, perecer, destruir”. Todavia, essa Raiz não é exclusividade das Línguas Neolatinas. Ela está presente no inglês mortal {mort}; no croata e esloveno smrtnik {smrt}; no letão mirstīgo {mirst}; no maltês mortali {mort} e no polonês śmiertelne {śmierte}. Obviamente, sendo essas Línguas “descendentes” do ramo Indo-Europeu e sendo a morte um fenômeno que assombra a humanidade desde sua origem, não é surpresa que haja uma Raiz universitária para ele.

As Raízes das Línguas Germânicas, por sua vez, parecem estar mais ligadas ao Grego: {thanat}, oriundas do Gótico dauthus, cujo significado é morte. Essa Raiz se encontra presente no inglês death; no alemão Tod; no dinamarquês e norueguês død; no holandês dood e no sueco död. Nas transformações Linguísticas, é comum a transformação do t em d (t > d). Não se pode dizer que {thanat} tenha originado dauthus, mas é notável que há, sim, uma Raiz ancestral comum a essas duas formas.

Outra forma grega é {necr} (de necrose e suas variantes). Essa Raiz parece ser mais comum tanto às Línguas Neolatinas como às Línguas Germânicas. Está presente no alemão Nekrose; no catalão necrosi; no estoniano nekroos; no francês nécrose; no sueco nekros etc. A influência dessa Raiz atravessou o mundo Indo-Europeu, e foi adotada em idiomas não oriundos desse ramo, como o finlandês nekroosi e o húngaro necrosis.

Mais uma Raiz latina com significado “morte” é {let}, presente em palavras como letal e letalidade. Vale notar que, dentre as Línguas Germânicas, sua forma está presente apenas no inglês lethal. As demais utilizam derivações como na forma do Gótico dauthus. Isso, claro, aconteceu por conta da “transferência” de vocabulário às Ilhas Britânicas, quando da invasão normanda em 1066.

Outra, não necessariamente significando morte, mas, sim, “que causa morte”, é a Raiz Latina {torp} (de torpe, entorpecente, torpedo e suas variantes) e a também Latina {cad}, que quer dizer “cair, perecer”.

A Raiz Indo-Europeia *{ster} "deu origem" (vem sempre entre aspas, quando fizer esse tipo de afirmação, pois, certamente, houve um longo caminho a ser percorrido entre a Raiz e sua derivada) ao alemão sterben, que significa morte literalmente. Também originou a forma latina strangulare que, posteriormente, agraciou o português com seu estrangular.

Se existe o morrer, existe o matar. O Indo-Europeu *{mer} foi a Raiz das formas maúrþrjan do gótico, morden do alemão e murder do inglês. Foi ela que originou o mors latino e suas derivações. Todavia, em Português, "matar" é mais complexo: houve a aglutinação da Raiz latina {magn}, originada pela {meg} grega (a mesma da palavra "mega" = grande), mas, nesse caso, significando "vida", com a Raiz {act}, significando "fazer" ou "levar". Algo como "levar a vida" (sabe-se lá para onde).

É o suicida quem leva a própria vida. Escondida nessa palavra, encontra-se a Raiz latina {cad}, também presente em cadáver e cair, que, por sinal, é o significado desse Morfema. O suicida é, pois, "aquele que faz cair a si mesmo", da mesma forma que o homicida "faz cair o homem" e o inseticida "faz cair o inseto".

Poético é o significado de óbito: {ob} significa espiritual e {it} significa caminho. É o caminho que o espírito pega para seu repouso eterno.

Uma vez mortos, precisamos de um lugar para ficar. Mais especificamente, para deitar. É esse o significado da Raiz latina {jac}, de jazer (do famoso "aqui jaz...") e o jazigo propriamente dito.

- Darini

sábado, 18 de julho de 2009

Religião é "religar"?

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Clássico: basta alguém começar a filosofar sobre religião, e a máxima "religião significa religar" aparece. Será? Façamos uma Análise Morfológica da palavra:

Prefixo: {re}, que significa "muito"

Raiz: {lig} < {leg} = reunião - mesma raiz de "legião", "legionário"

Sufixo: {ão} = significa "ação"

Interessante notar que {lig} também pode significar "ler". Nada absurdo, se considerarmos que, em muitos rituais religiosos, há sempre algum tipo de leitura - que, necessariamente, não precisa ser de um texto (metaforicamente: "leitura" da humanidade, leitura da essência humana etc).

A própria Revista Língua, em sua edição especial "Religião e Linguagem" (muito boa por sinal; vale a pena uma lida) diz:

A própria palavra "religião" é ela mesma um desafio de linguagem. Ela viria de religio, que os romanos antigos consideravam ser a raiz de relegere (retomar com cuidado, avaliar com calma) [...] e nos primeiros séculos depois de Cristo suspeitavam derivar de religare (unir, religar).


É muito provável que o significado popular de religar tenha nascido com o cristianismo, pois, segundo essa crença, foi Cristo que teria "religado" a humanidade com o criador.

Fugindo do campo da Análise Linguística, apresento outro significado, tomado do "The Devil's Dictionary" ("Dicionário do Demônio", em tradução livre), de Ambrose Bierce:

RELIGION, n. A daughter of Hope and Fear, explaining to Ignorance the nature of the Unknowable.

(Religião: uma filha da esperança e do medo, que explica à ignorância a natureza do desconhecido).

- Darini

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A Língua Portuguesa é machista?

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Não, caro leitor, a Língua Portuguesa não é "machista" (independente do fato de seus falantes o serem ou não). A regra é clara: diz mais ou menos que "quando há um grupo de seres de gêneros diferentes, devemos nos referir a eles pela declinação - chamemo-la assim - masculina". Isso acontece praticamente sempre no plural e, muitas vezes, no singular (veja como comecei o texto). O que fazemos, mesmo que inconscientemente, é aplicar, à construção, uma função NEUTRA mascarada de masculino.

Vejamos: muitas línguas, até hoje, mantém o gênero neutro em suas palavras. O inglês deve ser o mais notório, mas, nele, a coisa é fácil: rezam que "tudo o que é animal ou objeto é neutro". Exceções vão para animais de estimação ou navios grandes (que são femininos). O Latim tinha seus substantivos neutros, o alemão moderno os tem, o russo etc. Nos idiomas neolatinos, mantivemos apenas alguns resquícios do caso neutro. As palavras "isto", "aquilo" e "tudo" são espólio do neutro latino.

Historicamente, indo a tempos mais remotos do que o Latim, o gênero neutro deve ter surgido no ramo Indoeuropeu pela seguinte lógica: objetos de uso masculinos terão a declinação masculina, de uso feminino terão a declinação feminina e os de uso comum serão neutro. Simples, né? Sim, se considerarmos uma sociedade extremamente dividida no que concernia às funções específicas de cada gênero.

Acontece que, com o passar dos séculos, o gênero dos substantivos (no caso) perdeu essa ligação com o gênero daquele que "o possuía", e passou a ser considerado masculino, feminino ou neutro apenas por sua desinência final. Mais tempo passou, e o neutro foi sendo inutilizado. A declinação das palavras deste gênero foi se confundindo com as do masculino, fazendo com que a maioria das palavras neutras do Latim se tornassem masculinas no Português (e demais Línguas românicas).

No alemão, ao contrário, o artigo utilizado para o plural é o mesmo que o feminino singular. Portanto, se traduzirmos "Die Männer" (os homens) literalmente, teríamos "A" homens. Seria o alemão uma língua feminista?

Por outro lado, geralmente em discursos políticos recheados de demagogia, ouvimos construções como "Nobres deputados e deputadas" ou "Queridos professores e professoras", como se fosse extremamente necessário ressaltar que há um público de homens e mulheres em determinado auditório. Bobagem.

É por isso, leitoras, que as trato como "queridos leitores". Falta-me a desinência neutra para satisfazer aos afãs de ativistas mais exaltados (ou exaltadas?)

- Darini

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Vou "na" cidade ver o Arcaísmo!

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Quer ver um professor "padrão" de Português ter um surto? É só escrever como fiz no título dessa postagem. Entretanto, como (quase) tudo na língua tem uma explicação, lá vai o porquê de, frequentemente, "errarmos" a regência do verbo "ir": é um arcaísmo que mantivemos. A grosso modo, Arcaísmo é uma forma antiga da língua que, por algum motivo, se manteve.

Pode-se ver, na canção d'amigo de Pero Amigo (trovador do século XIII), o seguinte trecho:

“Quand'eu un dia fui en Compostela

En romaria, vi ua pastor...”


Nota-se que o autor usa a preposição “en” (em) junto ao verbo “ir” no passado (fui), o que não está de acordo com a norma culta contemporânea, que diz ser correto o uso da preposição “a” (fui a Compostela). Porém, na linguagem coloquial e do dia-a-dia, usa-se, no Português não-padrão brasileiro, a preposição “em” (“Fui na casa de Maria”). Trata-se de um arcaísmo que se manteve, isto é, uma característica antiga da sintaxe da língua que se enraizou na fala popular.

- Darini

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Appendix Probi - parte III

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Apenas algumas reflexões em torno do assunto:

1- Durante as últimas décadas, tem-se discutido muito a respeito do que se deve aceitar como sendo uma real mudança linguística. Os erros normativos de hoje podem bem ser considerados norma culta daqui a cinquenta ou cem anos. Um exemplo? Lá vai:

Me falaram muito mal dessa cidade. (ao invés de Falaram-me muito mal dessa cidade). Presente em várias construções do Italiano e Espanhol, a norma culta do Português faz uma maior restrição ao início de oração com o pronome oblíquo. Este seria liberado, quando, por exemplo, houvesse uma palavra atrativa:

Ele disse que me leva ao parque. (ao invés de Ele disse que leva-me ao parque). Nesse caso, a conjunção "que" funciona como palavra atrativa e traz o pronome oblíquo para antes do verbo. Há outros casos.

O próprio Latim "ignorava" a ordem das palavras na sentença, pois, para o entendimento de suas funções sintáticas, havia as declinações. Portanto, poder-se-ia iniciar um período pelo objeto indireto, por exemplo, sem que este fosse confundido com o sujeito.

2- Esteja onde estiver, Probo não deve estar de todo chateado. Algumas palavras se mantiveram (ou quase) da forma como ele ensinou. Vejam:

sobrius non suber - "sóbrio" em português, uma forma bem mais parecida do que "suber".

angulus non anglus - "ângulo" em português (ainda não "engolimos o "u").

columna non colomna - "coluna" em português.

aquaeductus non aquiductus - "aquaduto" em português.

masculus non mascel - "másculo" em português.

meretrix non menetris - acertamos na meretriz!

3- Por outro lado, ele deve estar se retorcendo na cova, pois mantivemos os "erros" dos seus alunos:

formica non furmica - Tudo bem, podemos escrever e falar /formiga/, mas também podemos falar /furmiga/.

bravium non brabium - Vejam só! O pessoal já ficava "brabo" desde aquele tempo!

calida non calda - Essa é para os italianos! Algo é cálido em português, mas é "caldo" em italiano.

umbilicus non imbilicus - O imbigo também tem o "i" desde aquele tempo.

camera non cammara - Também vivemos confundindo a "Câmera de execuções".

socrus non socra - Não tem jeito... sogra é problema desde aqueles tempos.

Esses comentários são mais uma forma irônica de repararmos como a língua, de fato, muda. Seja por "preguiça" da língua (a da boca, parte do corpo) em pronunciar certas combinações, seja pela não aceitação da regra padrão por parte de uma determinada sociedade, seja por "imposição" das classes dominantes etc. Que vai mudar, é fato e uma questão de tempo.

Pobre Pobro. Ele que o diga...

- Darini

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Appendix Probi - parte II

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Conforme prometido, faço aqui uma breve análise dos casos de mudança Linguística do Appendix Probi. Separei os casos por similaridade, ou seja, tentei agrupá-los conforme a "causa" da alteração do fenômeno fonético.

Obviamente, comecei analisando os mais fáceis. Não são todos que listo aqui, pois alguns tomam um tempo considerável de estudo. Vi alguns sítios de Filologia que contêm essa análise mais completa, mas, claro, não os li, pois quero descobrir por mim mesmo.


Caso 1 - Enfraquecimento da vogal u:

speculum non speclum
masculus non masclus
vernaculus non vernaclus
articulus non articlus
vetulus non veclus
vitulus non viclus
baculus non vaclus

Nos sete casos acima, ocorreu o mesmo fenômeno lingüístico: o enfraquecimento e conseqüente desaparecimento da vogal u. No caso de baculus > vaclus, ocorreu uma mudança fonética comum, em que v > b (também há casos em que b > v). Essa mudança pode ser percebida em palavras como aventura (port.); adventure (ing.); abenteuer (alem.).

angulus non anglus
iugulus non iuglus

Nos dois casos acima, houve enfraquecimento da vogal u de -gu-, e seu consequente desaparecimento.

capitulum non capiclum - mais uma mudança {tul} > {tlu} > {clu}


vapulo non baplo - ocorreu a mudança como no caso de baculus > vaclus. O u torna-se átono, até seu desaparecimento. Em seguida, ocorre a mudança v > b, por influência de outro fonema labial (p).


Caso 2 - Iodização:

calcostegis non calcosteis - iodização do g, mesmo efeito que ocorre com Regis > rei.

Caso 3 - Ditongação:

vacua non vaqua
vacui non vaqui

Nos dois casos acima, houve ditongação do hiato ua. Isso aconteceu pelo enfraquecimento fonético da vogal u. O contrário também ocorre, como nos casos abaixo:

equs non ecus
coqus non cocus
coquens non cocens
coqui non coci

Caso 4 - Nasalização:

cultellum non cuntellum
Hercules non Herculens
occasio non occansio

Caso 5 - Mudança fonética por influência de vogal pretônica:

suboles non subolis
vulpes non vulpis
lues non luis
deses non desis
reses non resis
vepres non vepris
fames non famis
clades non cladis
Syrtes non Syrtis
aedes non aedis
sedes non sedis
proles non prolis

Os doze casos acima mostram o mesmo fenômeno: uma vogal tônica anterior (pretônica) enfraquece a próxima vogal (nesses casos, faz com que haja a transformação e > i). É o mesmo fenômeno que acontece hoje em dia com a transformação menino > *mininu.

Caso 6 - Erros / Perda de declinação dos casos latinos:

formica non furmica - enfraquecimento de uma vogal (o) por influência de outra (i).

barbarus non barbar - perda da desinência de declinação.

acre non acrum - erro na desinência de declinação.

pauper mulier non paupera muli[er] - erro na desinência de declinação (no caso de pauper > paupera).

monofagia non monofagium - erro na desinência de declinação.

doleus non dolium - erro na desinência de declinação.

tristis non tristus - erro na desinência de declinação.

vico castrorum non vico castrae - erro na desinência de declinação.

ip[se] non ip[sus] - erro na desinência de declinação.

terraemotus non terrimotium - neste caso, é provável que, primeiramente, tenha havido um erro na desinência de declinação: terraemotus > *terraemotium e, em seguida, o enfraquecimento do ditongo ae por influência do i, fazendo terraemotus > *terraemotium > terrimotium.

socrus non socra - erro na desinência de declinação.

palumbes non palumbus - erro na declinação

Caso 7 - Erro ortográfico:

tersus non tertus - trata-se de erro ortográfico, e não de mudança fonética. No Latim, a consoante t, ao preceder as vogais i e e, corresponde com o grafema \s\. A correção se deu, neste caso, pois a consoante, em tertus, estava sendo correspondida com o grafema \s\ antes da vogal u, o que não era verdade.

adhuc non aduc - erro ortográfico, uma vez que não há fonema que corresponda com o grafema \h\ neste caso.


Caso 8 - Mudanças diversas num fonema por influência de outro:

carcer non car[car] - ocorreu analogia: um fonema já existente na palavra é repetido: {car}.

bravium non brabium - ocorreu a mudança fonética em que v > b.

vinea non vinia - enfraquecimento da vogal e por influência do i (em vinea)

umbilicus non imbilicus - enfraquecimento da vogal u por influência do i tônico.

c[a]elebs non celeps - influência do som do ditongo ae e fortalecimento do som de b.

senatus non sinatus - enfeaquecimento da vogal e por causa do a tônico.

pegma non peuma - vocalização da consoante g.

tabes non tavis
plebes non plevis

Nos dois casos acima, ocorreu a mudança fonética em que b > v. A transformação e > i ocorreu, provavelmente, por efeito do e aberto /e/ em ple- e, em tabes, por efeito da vogal a.

necne non necnec - ocorreu analogia: um fonema já existente na palavra é repetido.


Como disse, é meu ponto de vista do que pode ter, linguisticamente, acontecido nesses casos. Caso encontre algum erro, é só avisar e poderemos analisar por outra maneira.

- Darini

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Appendix Probi

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O Appendix Probi é uma listagem de 227 verbetes, cuja intenção seria a de corrigir os erros de grafia do Latim. Estima-se que foi escrito por volta do século III a.C. e seu autor é desconhecido (ou não, pois Probi = do Probo). Em todo caso, valeu a intenção de tentar manter a norma culta do Latim.

Mais para frente, farei algumas análises de mudança linguística, tomando um ou outro exemplo abaixo. Esta relação foi tirada do site da Universidade da Pennsilvania, que, por sua vez, tirou de uma publicação de 1922 chamada Sprachlicher Kommentar zur vulgärlateinischen Appendix Probi, de W. A. Baehrens.

Meio óbvio citar, mas lá vai: a forma correta é a que está à esquerda do
non.

porphireticum marmor non purpureticum marmur
tolonium non toloneum
speculum non speclum
masculus non masclus
vetulus non veclus
vitulus non viclus
vernaculus non vernaclus
articulus non articlus
baculus non vaclus
angulus non anglus
iugulus non iuglus
calcostegis non calcosteis
septizonium non septidonium
vacua non vaqua
vacui non vaqui
cultellum non cuntellum
Marsias non Marsuas
cannelam nun canianus
Hercules non Herculens
columna non colomna
pecten non pectinis
aquaeductus non aquiductus
cithara non citera
crista non crysta
formica non furmica
musivum non musum
exequiae non execiae
gyrus non girus
avus non aus
miles non milex
sobrius non suber
figulus non figel
masculus non mascel
lanius non laneo
iuvencus non iuvenclus
barbarus non barbar
equs non ecus
coqus non cocus
coquens non cocens
coqui non coci
acre non acrum
pauper mulier non paupera muli
carcer non car
bravium non brabium
pancarpus non parcarpus
Theophilus non Izophilus
monofagia non monofagium
Byzacenus non Bizacinus
Capse[n]sis non Capressis
catulus non catellus
[catulus non callus]
doleus non dolium
calida non calda
frigida non fricda
vinea non vinia
tristis non tristus
tersus non tertus
umbilicus non imbilicus
turma non torma
caelebs non celeps
ostium non osteum
Flavus non Flaus
cavea non cavia
senatus non sinatus
brattea non brattia
cochlea non coclia
cochleare non cocliarium
palearium non paliarium
primipilaris non primipilarius
alveus non albeus
glomus non glovus
lancea non lancia
favilla non failla
orbis non orbs
formosus non formunsus
ansa non asa
flagellum non fragellum
calatus non galatus
digitus non dicitus
solea non solia
calceus non calcius
iecur non iocur
auris non oricla
camera non cammara
pegma non peuma
cloaca non cluaca
festuca non fis
ales non
facies non fa
cautes non c
plebes non plevis
vates non vatis
tabes non tavis
suppellex non superlex
apes non apis
nubes non nubs
suboles non subolis
vulpes non vulpis
palumbes non palumbus
lues non luis
deses non desis
reses non resis
vepres non vepris
fames non famis
clades non cladis
Syrtes non Syrtis
aedes non aedis
sedes non sedis
proles non prolis
draco non dracco
oculus non oclus
aqua non acqua
alium non aleum
lilium non lileum
glis non iris
delirus non delerus
tinea non ti
exter non extraneus
clamis non clamus
vir non vyr
virgo non vyrgo
virga non vyrga
occasio non occansio
caligo non calligo
terebra non telebra
effeminatus non imfimenatus
botruus non butro
grus non gruis
anser non ansar
tabula non tabla
puella non poella
balteus non baltius
fax non facla
vico capitis Africae non vico caput Africae
vico tabuli proconsolis non vico tabulu proconsulis
vico castrorum non vico castrae
vico strobili non vico trobili
teter non tetrus
aper non aprus
amycdala non amiddula
faseolus non fassiolus
stabulum non stablum
triclinium non triclinu
dimidius non demidius
turma non torma
pusillus non pisinnus
meretrix non menetris
aries non ariex
pe non pessica
dysricus
opobalsamum non ababalsamum
mensa non mesa
raucus non ra[u]cus
auctor nun autor
auctoritas non autoritas
ip non ip
linteum non lintium
a< > non < >a
terraemotus non terrimotium
noxius non noxeus
coruscus non scoriscus
tonitru non tonotru
passer non passar
anser non ansar
hirundo non herundo
obstetrix non ops
capitulum non capiclum
noverca non novarca
nurus non nura
socrus non socra
neptis non nepticla
anus non anucla
tondeo non detundo
rivus non rius
imago non < >
pavor non paor
coluber non colober
adipes non alipes
sibilus non sifilus
frustum non frustrum
plebs non pleps
garrulus non garulus
parentalia non parantalia
caelebs non celeps
poples non poplex
locuples non locuplex
robigo non rubigo
plasta non blasta
bipennis non bipinnis
hermeneumata non erminomata
tymum non tumum
strofa non stropa
bitumen non butumen
mergus non mergulus
myrta non murta
zizipu(s) non zizup(u)s
iunipirus non (iu)niperus
tolerabilis non toleravilis
basilica non bassilica
tribula non tribla
viridis non virdis
constabilitus non constab[i]litus
Sirena non Serena
musium vel musivum non museum
labsus non lapsus
orilegium non orolegium
hostiae non ostiae
Februarius non Febrarius
clatri non cracli
allec non allex
rabidus non rabiosus
tintinaculum non tintinabulum
Adon non Adonius
grundio non grunnio
vapulo non baplo
necne non necnec
passim non passi
numquit non nimquit
numquam non numqua
nobiscum non noscum
vobiscum non voscum
nescioubi non nesciocobe
pridem non pride
olim non oli
adhuc non aduc
idem non ide
amfora non ampora

- Darini

domingo, 22 de março de 2009

Pobre Iulia Faustilia...

****************

O Império Romano foi (e causou) uma grande miscelânia linguística. A lógica era simples: invadir um novo território e impor-lhe a língua. Os povos invadidos, claro, aprendiam o novo idioma do modo que melhor lhes conviesse, pois não havia infraestrutura escolar nem mesmo para os romanos "legítimos".

Como eram poucos os que sabiam escrever e, dentre esses, nem todos seguiam o latim padrão, estudiosos usam tais "erros" para estudar as variações no latim vulgar. Um desses exemplos pode ser visto através das famosas "tabuinhas execratórias" (
Tabellae defixionum), que nada mais eram do que "orações de maldizer" que as pessoas faziam a seus inimigos.

Um dos exemplos mais divulgados nos cursos de letras é o que segue:


"Te rogo que infernales partes tenes, commendo tibi Iulia Faustilia, Marii filia, ut eam celerius abducas et ibi in numerum tu abias."

Cuja tradução, conforme retirada do site especializado http://www.filologia.org.br/ , é:

"
A ti, que dominas as regiões infernais, peço e encomendo Júlia Faustila, filha de Mário, para que a leves mais rapidamente e conserves aí no número dos mortos"

Alguns comentários no que diz respeito ao texto (sem esquecer o amor demonstrado pela pobre Iulia):

a- Presença Próclise: "te rogo...". Um texto em Português, escrito nessas condições, faria com que qualquer gramático desejasse a seu autor o mesmo destino de Iulia;

b- Ausência do prefixo {en} na palavra commendo, como acontece em inúmeras outras palavras do Latim (o prefixo veio a ser afixado mais tarde);

c- Ausência da letra "J" em Iulia: sendo uma "criação" celta, é óbvio que essa letra não existisse no Latim;

d- Ausência do "H" na palavra abias (hás / tenhas).

São apenas algumas obviedades. Não fiz nenhuma análise das conjugações verbais ou declinações, mas já notamos um claro exemplo das variações da língua Latina.

- Darini

terça-feira, 10 de março de 2009

Latim

****************

Antes de falarmos sobre o latim, eis alguns dados cronológicos para nos situarmos no tempo:

Fundação de Roma - Marco inicial: 753 A.C.
Realeza: Origens até 509 A.C.
República: de 509 A.C. a 27 A.C.
Império: de 27 A.C. a 476 D.C.

O “nascimento” de Roma, pela lenda de Rômulo e Remo, tem um caráter mais mítico do que histórico, mas considera-se a data de 753 a.C. como a fundação da cidade. Até o século VIII a.C., Roma foi habitada por camponeses vindos de Alba Longa, a pátria dos ancestrais de Rômulo, segundo diz a lenda. Depois, houve o estabelecimento de sabinos e etruscos.

Não há muita documentação relativa aos primeiros séculos de Roma. Documentos históricos muito posteriores a essa data dão uma visão controversa e confusa de um período marcado por guerras e revoltas. Nesse tempo, Roma era apenas uma pequena cidade, entre as muitas que formavam a Liga Latina. Considera-se o marco inicial da literatura latina a tradução da Odisséia, feita por Lívio Andronico, por volta de 240 a.C.

O período de República em Roma (509-27 a.C.) funcionava da seguinte forma: no lugar do rei, o conjunto da cidadania elegia anualmente dois cônsules. O descontentamento da plebe para com esse regime originou uma violenta luta, pois apenas os chamados patrícios, isto é, cidadãos abastados, poderiam concorrer à magistratura.

A literatura Latina teve seu ápice durante o chamado período ciceroniano (70-43 a.C.), representado por César, Cícero, Terêncio, Catulo e Lucrécio.

O fortalecimento de Roma, militarmente, se deu após a invasão gaulsesa, ocorrida por volta de 390 a.C., que então deixou Roma destruída. Cientes de sua vulnerabilidade e fraqueza, a cidade procurou se preparar para futuras investidas. A partir daí, veio a marcha expansionista, com suas primeiras conquistas sendo sobre os samnitas (341, 326 e 304 a.C.) da Itália meridional, e sobre Tarento (272 a.C.), um centro cultural grego ao sul da Península Itálica.

A expansão territorial trouxe consigo a expansão da língua de Roma, o Latim. De um simples dialeto (junto ao Umbro e o Osco), o Latim veio a se tornar uma língua de dominação, a língua oficial daquele que foi um dos maiores impérios que a humanidade já conheceu.

Vale lembrar que o Latim não era imposto pelos dominadores. O ensino da língua era incentivado pelos romanos através da construção de escolas, ao estilo romano, nos territórios conquistados. O incentivo também se dava pelo status que possuía aquele que falava a língua do império.

Latim Clássico x Latim Vulgar

Na história do Latim, houve uma divisão entre a forma erudita (clássica / literária), que era falada pelos escritores, nobres e pessoas cuja classe social e educação eram elevadas; e a forma vulgar, usada pelas pessoas mais simples. Esta segunda forma de Latim não era prioritariamente escrita, pois na hora de escrever, as pessoas procuravam fazê-lo de em Latim Clássico.

Hoje, é possível recuperar formas do Latim Vulgar através de gramáticas latinas que apontavam o modo normativo correto de escrever e o incorreto, geralmente popular. Na literatura, personagens incultos eram retratados com seu modo próprio de falar, fazendo com que mais uma fonte do “vulgarismo” seja conhecida.

Saindo da área literária, as diferentes formas escritas deixadas em outros tipos de materiais (metal, madeira etc) também podem nos indicar as diferentes formas de dialetação. E, por fim, empréstimos feitos do latim a línguas não-latinas também são uma fonte de conhecimento de alguns vocábulos do Latim Vulgar.

Características do Latim

- Ausência de acentos (grave, agudo, circunflexo)
- Não há artigos (o, a, um, uma)
- Não há palavras oxítonas
- Há 4 conjugações verbais
- Há 5 grupos de substantivos
- Apresenta 2 classes de adjetivos
- Apresenta 3 gêneros: masculino, feminino e neutro
- Dois números: singular e plural

Substantivos masculinos em Português, Italiano e Espanhol: frutos da 2ª declinação.

Vejamos a tabela de Substantivos da 2ª declinação:



SINGULAR

PLURAL

NOMIN

Us

Er

Ir

Um

I

I

I

A

VOCAT

E

Er

Ir

Um

I

I

I

A

GENIT

I

I

I

I

Orum

Orum

Orum

Orum

DATIVO

O

O

O

O

Is

Is

Is

Is

ABLAT

O

O

O

O

Is

Is

Is

Is

ACUSAT

Um

Um

Um

Um

Os

Os

Os

A


MASC

MASC

MASC

NEUTRO

MASC

MASC

MASC

NEUTRO

Podemos notar que os substantivos masculinos eram, no dativo e no ablativo singulares, terminados em “o”, e no acusativo plural, em “os”. Já o nominativo e vocativo plural eram terminados em “i”. Fazendo uma análise com o Português e Espanhol modernos, temos a maioria das palavras masculinas terminadas em “o”, e seu plural em “os”. Em italiano, o masculino singular é, em sua maioria, terminado em “o” e o plural é terminado em “i”.

O que temos, hoje, nessas línguas, nada mais é do que o resultado da dialetação do latim vulgar, que “facilitou” a regra original da “língua-mãe”, modificando-a de acordo com a necessidade dos distintos grupos de falantes.

- Darini

Bibliografia:

- ALMEIDA, Napoleão Mendes de. Gramática Latina.
- Cardoso, Zélia de Almeida. A Literatura Latina.