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sábado, 18 de setembro de 2010

O Apanhador no Campo de Centeio x Dois Irmãos

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Semelhanças entre os narradores de “Dois Irmãos” e “O Apanhador no Campo de Centeio”

No que concerne a perda e/ou busca de identidade do narrador, podemos fazer algumas comparações que aproximam a obra “Dois Irmãos” e a “O Apanhador no Campo de Centeio”. Nesta análise, fizemos uma breve explanação do enredo desta última, assinalando esses pontos em comum.

Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Já em “Dois Irmãos”, Nael é pobre e filho da empregada da família, Domingas, e desconhece quem seja seu pai. No entanto, a trama acontece no mesmo período do Apanhador (anos 40/50).

Em relação aos ambientes vividos pelos narradores, o primeiro mostra a cidade de Nova Iorque sempre de acordo com seu ponto de vista; já em Dois Irmãos, o narrador faz uma detalhada descrição de Manaus, sua cidade natal, mas embora viva “in loco” a maior parte das tramas, outra lhe era contada por Halim ou de Domingas. De certa forma, podemos dizer que nesta trama toda a história é contada a partir do ponto de vista do narrador, já que ele reproduz o que ouviu de outros, dando a sua versão e seu entendimento dos fatos.

A perda de identidade é distinta, mas presente em cada obra: em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o protagonista-narrador procura sua identidade pessoal, psicológica. Ele faz o tipo “adolescente rebelde”, ou “rebelde sem causa”, mesmo sendo de uma família de posses. O problema de Holden é a conflituosa relação dele com o mundo e tempo em que vive: ele não se identifica com nenhum outro tipo de personagem a não ser com sua irmã mais nova, Phoebe (podendo representar a inocência) e com um irmão já falecido, de quem guarda muitas saudades (Allie). Neste caso, a identificação pode se dar por causa do sentimento da perda do ente querido, pois o ser-humano tende a guardar apenas as boas memórias daqueles que já se foram. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer”; e ao cumprir sua meta, agradecia-o.

A busca da identidade dentro de si mesmo, a repulsa dos padrões desse mundo e a identificação pela inocência pode ser vista na cena em que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade.

Já em “Dois Irmãos”, Nael busca sua identidade cultural e genealógica: sabe apenas quem é sua mãe, mas tem dúvidas em relação à paternidade. Embora ele (e o leitor) possam acreditar 98% que Omar seja seu pai por conta da violência cometida contra a empregada, ainda nos resta uma sombra de dúvida antes de afirmarmos com certeza de quem ele descende.

Assim como Holden procurava a liberdade, Nael também o faz. Uma vez que a descoberta de sua paternidade se encerra, e se fosse ele um membro daquela família, sua condição de empregado se elevaria a de membro da família, além de que a descoberta lhe traria liberdade espiritual e psicológica, uma vez que a maior dúvida, o segredo que mais lhe intrigava estariam solucionados.

Ao final da trama (mais especificamente nas duas últimas páginas), o narrador parece ter “canalizado” seus sentimentos para que a liberdade viesse de outra forma: no encontro final deste com Omar, não há diálogo: ambos apenas se encaram, até que o segundo vai embora. Esse silêncio de ambos, principalmente por parte de Nael, pode significar que ele deixou de querer saber a verdade, pois esta poderia lhe trazer mais sofrimento do que a dúvida, pois certos de que Nael e Omar não se gostavam, a certeza da condição pai e filho entre eles poderia resultar num desfecho mais trágico entre os dois; portanto, a eterna incerteza da verdade era o sinal de sua liberdade.


- Darini


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Os narradores de “Dois Irmãos” e “O Apanhador no Campo de Centeio”

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Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Já em “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, Nael é pobre e filho da empregada da família, Domingas, e desconhece quem seja seu pai. No entanto, a trama acontece no mesmo período do Apanhador (anos 40/50).

Em relação aos ambientes vividos pelos narradores, o primeiro mostra a cidade de Nova Iorque sempre de acordo com seu ponto de vista; já em Dois Irmãos, o narrador faz uma detalhada descrição de Manaus, sua cidade natal, mas, embora viva “in loco” a maior parte das tramas, outra lhe era contada por Halim ou por Domingas. De certa forma, podemos dizer que, nesta trama, toda a história é contada a partir do ponto de vista do narrador, já que ele reproduz o que ouviu de outros, dando a sua versão e seu entendimento dos fatos.

A perda de identidade é distinta, mas presente em cada obra: em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o protagonista-narrador procura sua identidade pessoal, psicológica. Ele faz o tipo “adolescente rebelde” ou “rebelde sem causa”, mesmo sendo de uma família de posses. O problema de Holden é a conflituosa relação dele com o mundo e tempo em que vive: ele não se identifica com nenhum outro tipo de personagem a não ser com sua irmã mais nova, Phoebe (podendo representar a inocência) e com um irmão já falecido, de quem guarda muitas saudades (Allie). Neste caso, a identificação pode se dar por causa do sentimento da perda do ente querido, pois o ser humano tende a guardar apenas as boas memórias daqueles que já se foram. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer” e, ao cumprir sua meta, agradecia-o.

A busca da identidade dentro de si mesmo, a repulsa dos padrões desse mundo e a identificação pela inocência pode ser vista na cena em que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade.

Já em “Dois Irmãos”, Nael busca sua identidade cultural e genealógica: sabe apenas quem é sua mãe, mas tem dúvidas em relação à paternidade. Embora ele (e o leitor) possam acreditar 98% que Omar seja seu pai por conta da violência cometida contra a empregada, ainda nos resta uma sombra de dúvida antes de afirmarmos com certeza de quem ele descende.

Uma coisa chega mais perto aos 100% de certeza: sua origem é uma mistura indígena e árabe, uma vez que os principais “suspeitos” são os da família de Halim. Mesmo que não houvesse essa dúvida em relação à paternidade ser de um dos três, podemos afirmar categoricamente que a cultura a que Nael foi submetido foi uma mistura das supracitadas, uma vez que ele conviveu nesse meio. O ambiente (Manaus) influenciou na cultura do imigrante (árabe) e essa influência será passada àqueles que convivem nesse meio.

Assim como Holden procurava a liberdade, Nael também o faz. Uma vez que a descoberta de sua paternidade se encerra e, se fosse ele um membro daquela família, sua condição de empregado se elevaria à de membro da família, além de que a descoberta lhe traria liberdade espiritual e psicológica, uma vez que a maior dúvida, o segredo que mais lhe intrigava, estaria solucionada.

Ao final da trama (mais especificamente nas duas últimas páginas), o narrador parece ter “canalizado” seus sentimentos para que a liberdade viesse de outra forma: no encontro final deste com Omar, não há diálogo: ambos apenas se encaram, até que o segundo vai embora. Esse silêncio de ambos, principalmente por parte de Nael, pode significar que ele deixou de querer saber a verdade, pois esta poderia lhe trazer mais sofrimento do que a dúvida, pois certos de que Nael e Omar não se gostavam, a certeza da condição pai e filho entre eles poderia resultar num desfecho mais trágico entre os dois; portanto, a eterna incerteza da verdade era o sinal de sua liberdade.

- Darini

domingo, 17 de maio de 2009

GREAT ARE THE MYTHS - poema de Walt Whitman

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GREAT ARE THE MYTHS. Leaves of Grass (1867)
http://www.whitmanarchive.org/published/LG/1867/poems/139

1 GREAT are the myths—I too delight in them;
Great are Adam and Eve—I too look back and accept
them;
Great the risen and fallen nations, and their poets,
women, sages, inventors, rulers, warriors, and
priests.

2 Great is Liberty! great is Equality! I am their
follower;
Helmsmen of nations, choose your craft! where you
sail, I sail,
I weather it out with you, or sink with you.

3 Great is Youth—equally great is Old Age—great
are the Day and night;
Great is Wealth—great is Poverty—great is Expres-
sion—great is Silence.

4 Youth, large, lusty, loving—Youth, full of grace,
force, fascination!
Do you know that Old Age may come after you, with
equal grace, force, fascination?

5 Day, full-blown and splendid—Day of the immense
sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close, with millions of suns, and
sleep, and restoring darkness.

Neste poema, Walt Whitman "equaliza" tudo na vida: as grandes nações emergentes com as decadentes, os poetas, sábios, guerreiros... em uma poesia repleta de antíteses, que são sempre chamadas de "grande", Walt parece celebrar a grandeza da vida, mesmo com sua inconstância para melhor ou para pior (que nos leva a vencer ou aprender a superar obstáculos). Tratando da estrofe 5:

"Dia desabrochado e esplêndido... dia de Sol imenso, de ação, de ambição e risadas,
A noite segue de perto, com milhões de sóis, e sono, e treva restauradora".

Transcedentalista, Whitman descreve o dia como que falando da beleza do viver, cheio de alegria; ao mesmo tempo, fala da morte (a noite), que sempre acompanha a vida e traz consigo a "treva restauradora" (o suspiro final, ou descanso eterno). Além disso, a restauração nos sugere um novo acordar, que pode significar o despertar para uma nova vida nesse mundo ou um despertar espiritual num mundo novo e desconhecido.

- Darini

domingo, 12 de abril de 2009

Charles Bukowsky e Darini sobre a arte de escrever

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Disse o velho safado:

"Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente-a-frente com a morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço nas trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha..."

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E digo mais: o escrever te faz ser um "deus": você cria e destrói mundos, pessoas, personagens, ideias... o que sai da sua caneta, do seu lápis ou do toque no teclado é como o sopro de inspiração que vai atingir pessoas que você nem conhece. É mágico, é sobrenatural.

Acredito que, SEMPRE, em todas as ocasiões, o escritor coloca sua alma, sua mente à mercê dos leitores. Cabe, sim, a eles, desvendar esses "hieróglifos" da melhor maneira que lhes convier e, por que não, SE lhes convier.

- Darini

terça-feira, 17 de março de 2009

O Apanhador no Campo de Centeio - livro de J. D. Salinger

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Único. Diferente. Provocativo. Forte.

São esses, dentre muitos outros, aqueles adjetivos com que podemos caracterizar a obra “O Apanhador no Campo de Centeio”, em que o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Durante toda a trama, temos o mundo (ou, mais precisamente, a cidade de Nova Iorque) mostrado de acordo com o ponto de vista de um adolescente. Seus amores, seus ódios, seus conflitos psicológicos... tudo foi escrito de tal maneira que aquele mais desavisado, ao ler a trama, pode mesmo pensar que foi escrito por um jovem da idade de Holden.

A linguagem (dando destaque especial para a tradução1) é simples, as gírias e palavreado sem preocupação normativa, às vezes repetitivos, nos colocam mais próximos do personagem principal, que é o narrador de suas aventuras. Os períodos são curtos e as conjuções parecem ter sido esquecidas em muitos momentos da história, remetendo-nos ao estilo de texto da época surrealista. Provavelmente, a intenção do autor (mantida, felizmente, pelos tradutores) foi de dar ao leitor a sensação de “assistir” à mente do protagonista enquanto as inúmeras ações vão acontecendo. Assim como os pensamentos nos surgem de repente, às vezes sem uma ligação “suave” de um com o outro, da mesma forma é o estilo em que a obra nos é colocada. Outra análise em relação a essa peculiaridade pode ser a de que o escritor nos quisesse mostrar a rapidez como as coisas aconteciam na vida, no falar e na mente do jovem: fato após fato, decisão após decisão.

Os tipos encontrados por Holden no decorrer da história são aqueles estereótipos que encontramos em todos os tempos e em qualquer lugar do mundo: o colega de quarto que pensa ser o “Don Juan” conquistador, o pentelho que mexe nas coisas dos outros sem permissão, o velho professor que ainda se preocupa em dar conselhos aos mais jovens e ficam abismados com a (aparente?) indiferença destes, o motorista de táxi grosseiro, a simpática freira, a prostituta, os cabarés, seus artistas e freqüentadores, as amigas / namoradas com quem vive as dúvidas e conflitos do amor, a família... enfim, em sua caminhada pela grande cidade, o jovem se depara com tipos encontrados por nós mesmos no dia-a-dia, e os comentários que faz destes, unidos aos pensamentos que ele tem, é aquilo que todos nós, de uma forma mais “agressiva” ou não, diríamos ou pensaríamos, se passássemos pelas mesmas situações.

“O Apanhador no Campo de Centeio” causa, naquele que o lê, uma mistura interessante de sensações: tristeza, pena, raiva, compaixão, um pouco de humor e crítica. Crítica a alguns valores enraizados na cultura ocidental como um todo, como a educação: Holden não conseguia se adaptar ao tradicionalismo dos colégios pelos quais passava. Curiosamente, havia passado apenas em inglês, disciplina que, em suas literaturas, requer uma visão maior do mundo, e não apenas a análise literal do escrito pelo escrito.

O jovem protagonista tem uma grande estima e amor pela família, sobretudo por seus irmãos: Phoebe (a mais nova), D.B., o escritor que se “prostituiu” ao aceitar trabalhar em Hollywood e Allie, já falecido, com quem parecia ter uma ligação transcedental. O modo com que esse irmão é citado nos comove, parecendo ser, em certas ocasiões, um “amparo” para o protagonista. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer” e, ao cumprir sua meta, agradecia-o.

Outro trecho que merece menção é aquele em que o título do livro é mencionado pela 2ª vez. Erroneamente, Holden canta uma música dizendo “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio...” nesse momento, é corrigido por Phoebe, que diz que o certo seria “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio...” O fato é que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade. O que parecia um adolescente rebelde “sem causa”, era na verdade alguém que queria se libertar de padrões sociais e regras.

Com um final inesperado (que tem uma ligação interessante com o início da trama), “O Apanhador no Campo de Centeio” é uma obra que merece ser lida, relida e discutida, principalmente pelos elementos psicológicos explorados por Salinger. Contemporânea, ela nos faz pensar em como cultivar nosso próprio “campo de centeio”.


1- A edição lida foi a da Editora do Autor - 13ª edição.

- Darini

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

In Tempore Senectutis - Poema de Ezra Pound

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In Tempore Senectutis


When I am old
I will not have you look apart
From me, into the cold,
Friend of my heart,
Nor be sad in your remembrance
Of the careless, mad-heart semblance
That the wind hath blown away
When I am old.

When I am old
And the white hot wonder-fire
Unto the world seem cold,
My soul's desire
Know you then that all life's shower,
The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

When I am old
If you remember
Any love save what is then
Hearth light unto life's December
Be your joy of past sweet chalices
To know then naught but this
"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."


Em “In Tempore Senectutis”, encontramos um Ezra muito mais “existencial”, falando de um amor quase platônico, mas que nunca fica claro se é dirigido a um homem ou mulher, a uma amizade ou paixão – o verso “Friend of my heart” não pode ser levado como conclusivo para essa afirmação, já que a palavra “friend” pode ser dirigida a um(a) amigo(a) ou namorado(a). A constante repetição de “When I am old” faz uma quebra no poema; quebra que leva o leitor a pensar em sua própria situação de quando a velhice chegar. Cada vez que ele menciona essa frase, é como se nos dissesse: “está chegando... está chegando”.

Alguns momentos, como a passagem “Nor be sad in your remembrance”, nos faz perceber que essa mensagem é dirigida a alguém que, no momento do “When I am old”, ou seja, quando a velhice chegar, estará longe, apenas na lembrança; ou foi feita para quando o próprio autor fosse essa lembrança, e deixa um recado a seu amor para que não se entristeça com as memórias passadas.

O poema tem lindas e profundas metáforas. Vejamos o seguinte trecho:

The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

A “chuva dos anos” (a idade, o passar dos anos) fará nascer uma flor que inclua tudo (ou todas as outras flores), quando estivermos velhos. É possível, nessa passagem, o entendimento de que essa flor nada mais é que o acúmulo de vivência, de amores, de sentimentos, de experiências, de sabedoria... de tudo aquilo que o ser humano adquire com o passar dos anos. Podemos ler isso também como uma meta na vida humana: apenas alguns privilegiados terão essa flor, apenas aqueles que chegarem nesse estágio da vida serão merecedores e contemplados.

Tudo isso para quê? Para um final simples, mas esperado por todos aqueles que amam:

"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."

Quais maravilhas serão menos doces do que o amor que eu carrego por você quando (eu) estiver velho. – ou seja, o ápice do amor não acontece no primeiro namoro, na ilusão mascaradora da juventude, mas sim na velhice, ao termos passado por provações, tentações, problemas desilusões etc. É depois de tudo isso que temos a certeza do sentimento, é quando temos o verdadeiro desabrochar da flor. Reparemos também que o autor não finaliza o poema com uma interrogação, mas deixa a afirmação de que talvez nenhuma maravilha seja mais doce do que esse amor.

- Darini

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mr. Jones - Conto de Truman Capote

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Nas poucas páginas de “Mr. Jones” (um conto que se parece mais com uma crônica), o narrador relata o tempo em que viveu num quarto alugado no bairro do Brooklin. Ele foca a história em seu vizinho, Mr. Jones, que vivia no maior quarto da casa, e de onde o narrador via pessoas de todos os tipos e idades entrando e saindo, mas não sabia o que toda essa gente queria com ele. Cego e aleijado, Mr. Jones não saía de casa, e todas as suas necessidades de consumo eram supridas pelas empregadas daquele lugar. Fossem amigos ou pessoas que pagavam para ouvir seus conselhos, ele acredita que aquele homem era alguém entre um pastor e um terapeuta.

O tempo passou, o narrador muda-se de bairro e um dia volta para pegar alguns livros que deixara em seu quarto. Pergunta a uma das empregadas sobre Mr. Jones, e ela diz que está desaparecido há quase um mês, e que tudo em seu quarto estava intacto, mas ele não estava mais lá. Dez anos se passam, e o narrador está em Moscou, no metrô. Do outro lado do corredor, ele vê um homem que acredita sero antigo vizinho. Ele analisa a fisionomia, tendo certeza de que era ele. Mas, antes de poder atravessar o vagão e ir lhe falar, Mr. Jones levanta-se e sai do trem, tendo as portas fechadas logo atrás dele.

Considerando o período de tempo em que se passa a narrativa (1945-1955), Capote pode ter feito, neste conto, uma referência à guerra fria. Ele nos faz supor que Mr. Jones era, na verdade, um agente em ação nos EUA, assim como o narrador pode ser um agente em missão na então URSS, por isso a referência a estar em Moscou quando do reencontro.

Outro olhar que podemos ter sobre esse final misterioso e inesperado, é que Capote nos mostra que nem tudo aquilo a que somos condicionados a acreditar é verdade. Ao mesmo tempo, também nos remete à pequenez do mundo em que vivemos, e como podemos reencontrar tipos que fizeram parte do nosso passado quando menos esperamos. Esses inesperados reencontros nos fazem descobrir verdades que essas pessoas até então mantinham escondidas.



- Darini