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sábado, 18 de setembro de 2010

O Apanhador no Campo de Centeio x Dois Irmãos

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Semelhanças entre os narradores de “Dois Irmãos” e “O Apanhador no Campo de Centeio”

No que concerne a perda e/ou busca de identidade do narrador, podemos fazer algumas comparações que aproximam a obra “Dois Irmãos” e a “O Apanhador no Campo de Centeio”. Nesta análise, fizemos uma breve explanação do enredo desta última, assinalando esses pontos em comum.

Em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Já em “Dois Irmãos”, Nael é pobre e filho da empregada da família, Domingas, e desconhece quem seja seu pai. No entanto, a trama acontece no mesmo período do Apanhador (anos 40/50).

Em relação aos ambientes vividos pelos narradores, o primeiro mostra a cidade de Nova Iorque sempre de acordo com seu ponto de vista; já em Dois Irmãos, o narrador faz uma detalhada descrição de Manaus, sua cidade natal, mas embora viva “in loco” a maior parte das tramas, outra lhe era contada por Halim ou de Domingas. De certa forma, podemos dizer que nesta trama toda a história é contada a partir do ponto de vista do narrador, já que ele reproduz o que ouviu de outros, dando a sua versão e seu entendimento dos fatos.

A perda de identidade é distinta, mas presente em cada obra: em “O Apanhador no Campo de Centeio”, o protagonista-narrador procura sua identidade pessoal, psicológica. Ele faz o tipo “adolescente rebelde”, ou “rebelde sem causa”, mesmo sendo de uma família de posses. O problema de Holden é a conflituosa relação dele com o mundo e tempo em que vive: ele não se identifica com nenhum outro tipo de personagem a não ser com sua irmã mais nova, Phoebe (podendo representar a inocência) e com um irmão já falecido, de quem guarda muitas saudades (Allie). Neste caso, a identificação pode se dar por causa do sentimento da perda do ente querido, pois o ser-humano tende a guardar apenas as boas memórias daqueles que já se foram. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer”; e ao cumprir sua meta, agradecia-o.

A busca da identidade dentro de si mesmo, a repulsa dos padrões desse mundo e a identificação pela inocência pode ser vista na cena em que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade.

Já em “Dois Irmãos”, Nael busca sua identidade cultural e genealógica: sabe apenas quem é sua mãe, mas tem dúvidas em relação à paternidade. Embora ele (e o leitor) possam acreditar 98% que Omar seja seu pai por conta da violência cometida contra a empregada, ainda nos resta uma sombra de dúvida antes de afirmarmos com certeza de quem ele descende.

Assim como Holden procurava a liberdade, Nael também o faz. Uma vez que a descoberta de sua paternidade se encerra, e se fosse ele um membro daquela família, sua condição de empregado se elevaria a de membro da família, além de que a descoberta lhe traria liberdade espiritual e psicológica, uma vez que a maior dúvida, o segredo que mais lhe intrigava estariam solucionados.

Ao final da trama (mais especificamente nas duas últimas páginas), o narrador parece ter “canalizado” seus sentimentos para que a liberdade viesse de outra forma: no encontro final deste com Omar, não há diálogo: ambos apenas se encaram, até que o segundo vai embora. Esse silêncio de ambos, principalmente por parte de Nael, pode significar que ele deixou de querer saber a verdade, pois esta poderia lhe trazer mais sofrimento do que a dúvida, pois certos de que Nael e Omar não se gostavam, a certeza da condição pai e filho entre eles poderia resultar num desfecho mais trágico entre os dois; portanto, a eterna incerteza da verdade era o sinal de sua liberdade.


- Darini


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A bela crônica do amor

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Acho ridículo esse sistema social de procriação que inventaram... criaram-se regras que vão totalmente contra a biologia humana. Acreditem: o macho é APENAS o procriador; a fêmea, apenas sua "protegida", enquanto a prole não se desenvolve. Acabaria por aí! Finitus est, C'est fini, The End, Já era, Bau-bau, È finito, Das Ende...

Mas nããããããooo... esta sociedadezinha cretina (que começa lá pelo paterfamilias - ou antes!) inventou algo bem prático: para procriar, você precisa arrumar alguém do sexo oposto e viver a vida toda com ele/a. Se não conseguir, tudo bem, mas arque com os custos da prole até os 18 ou final da faculdade (principalmente se você for otário do "macho").

Para que isso desse certo, inventaram algo mais prático ainda: o tal do "amor", que nada mais é do que o tesão, a vontade pura da já mencionada PROCRIAÇÃO.

"Então, por que o amor não acaba depois da procriação?" - você pergunta.

Pura convenção social (status, necessidade, interesse, autoafirmação etc). Enquanto houver o tesão, haverá "amor". Quando este acabar, aí já é tarde demais (salvo raras exceções) para tentar algo novo / diferente.

Tesão "floreado" = amor.

- Darini

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A Morte e a Filosofia

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Diz Nietzsche:


"Abstração feita das exigências que a religião impõe, pode-se muito bem perguntar: por que haveria mais glória para um homem que envelheceu, que sente o declínio de suas forças, ficar esperando seu lento esgotamento e sua dissolução do que ele próprio fixar, em plena consciência, um fim? O suicídio é, neste caso, um ato de todo próximo e de todo natural que, enquanto triunfo da razão, deveria, equitativamente, suscitar respeito: e até o suscitou naqueles tempos em que os guias da filosofia grega e os mais corajosos patriotas romanos costumavam morrer por suicídio.

Pelo contrário, é muito menos respeitável a ânsia de se prolongar de dia para dia por meio da inquieta consulta dos médicos e o mais penoso regime de vida, sem forçar para chegar mais perto do próprio termo da vida.

As religiões são ricas em expedientes contra a necessidade do suicídio: é um meio para se insinuar junto daqueles que estão apaixonados pela vida."


Bem dito. Os guerreiros de diferentes culturas se suicidavam por causa "da honra" (como os samurais) ou se entregavam espontâneamente à morte (como amplamente "documentado" pelas literaturas). A entrega espontânea à morte não deixa de ser, de certa forma, um modo distinto de suicício, mas com menos culpa do que aquele em que o executor e o condenado são as mesmas pessoas. Perdi a batalha com meu inimigo? Sem problemas, entrego-me à morte pelas mãos deles. Meu reino foi invadido, saqueado e destruído por forças invasoras? Da mesma forma, deixo deliberadamente que estes invasores façam minha sentença.


O ato de se entregar à morte é mais um gesto de coragem, ao mesmo tempo que traduz o medo da incerteza das consequências vindouras, caso esse ato não tivesse sido tomado. Vale mais, na forma do pensamento heroico, morrer nobremente a ter que passar o resto dos dias humilhado pelas forças dominantes.


O mesmo pode-se dizer do "morrer por uma causa", que não deixa de ser um ato de suicídio. O ato de entregar a vida a essa causa a torna mais digna, mas séria, mesmo que o suicida, obviamente, não esteja mais lá para presenciar se obteve sucesso. Todavia, isso não importa, pois a paixão e a cegueira o dominam, e ele entrega sua própria vida com prazer e orgulho.


- Darini


domingo, 24 de maio de 2009

Minha carta de suicídio

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Interessante como a esmagadora maioria dos suicidas tem, necessariamente, de deixar uma carta explanando os motivos que a levaram a realizar tal feito. Analisando por alto, creio que a carta significa algo como: "olha, eu não morri acidentalmente, nem de causas naturais, tampouco fui assassinado por alguém. Se ainda resta sombra de dúvidas, saibam que eu mesmo me matei".

É esse (a grosso modo) o objetivo da carta de adeus. Entretanto, descrever as razões que levaram a pessoa ao suicídio cabe somente ao suicida em questão. Jogar a culpa em alguém é uma boa, pois, do ponto de vista do acusado, saber que fomos culpados pela desgraça de outro, acaba por nos deixar num estado-de-espírito extremamente abalado.

Como seria minha carta de adeus? Eu, se me suicidasse, diria sem mais delongas:


"Tô de saco cheio, e a culpa é de TODOS vocês. O último que sair, apague a luz."


- Darini

sábado, 2 de maio de 2009

Ensaio sobre a Cegueira - Livro de José Saramago

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Em seu "Ensaio sobre a Cegueira", Saramago critica o rumo que as coisas tomaram nesta época em que vivemos. A "cegueira branca" que se alastra pela cidade, poupando apenas uma mulher, nos faz refletir sobre os problemas que, para a maioria de nós, passam despercebidos. Por quantas vezes, em nossa rotina "automatizada", não damos atenção, fazemos vistas grossas ou, simplesmente, ignoramos necessidades humanas que nos estão logo à frente? Num tempo em que tudo deve ser rápido, automático e produtivo, o ser-humano está deixando de ser humano. Estamos virando "robôs que comem e respiram". O outro? "Que eu tenho a ver com as necessidades do outro?" Essa é nossa cegueira branca.

Nessa cidade (ou mundo) que criou Saramago, todos são iguais. Não há nomes para os personagens e o modo como o autor os apresenta (através de alguma característica, profissão ou defeito) torna-os mais vivos em nossa memória. Podemos nos esquecer de vários nomes de personagens provenientes de clássicos lidos outrora, mas, com certeza, lembraremos da figura da "mulher do médico", "o velho da venda preta" e, até mesmo, do "cão das lágrimas" por muito tempo, até mesmo pelo fato de serem personagens do dia-a-dia, que podem ser encontrados em qualquer cidade real. A prostituta, o velho, o ladrão, o motorista de táxi, o menino abandonado... são eles que protagonizam o Ensaio. Não são heróis, mas pessoas marginalizadas sobre as quais o autor coloca os holofotes. Ele mostra que elas existem e que podem superar suas dificuldades, principalmente se houver uma mão amiga que os guie (mulher do médico).

A cegueira branca, de certa forma, atinge o leitor. Como pode uma jovem, às vistas da sociedade, apaixonar-se por um homem pobre, defeituoso e que não segue os padrões convencionais de beleza? Durante a leitura, não acreditamos que isso pudesse acontecer, mas o sentimento que nasce entre a rapariga de óculos e o velho da venda preta é maior do que qualquer "convenção" ou interesse superficial que possa surgir no coração humano. É algo profundo e que transcende qualquer estereótipo ou preconceito.

Pessoas do povo que se tornam mais iguais do que nunca, e têm de conviver em comunidade por tempo indeterminado aturando suas diferenças e defeitos. O governo? Este já está cego antes de tudo e de todos, pois fazem o que muitos governantes fazem: eliminam o mal, mas não sua causa. O modo desumano com que os "contaminados" são tratados realmente impressiona: tudo a eles é feito à distância. Um passo em falso, e a morte lhes era certa. O medo daqueles ditos diferentes causa uma celeuma coletiva: "teve contato com um cego? Está condenado!"

Os personagens precisam passar por uma revolução de vida para serem curados de sua cegueira. Provavelmente, é isso que José Saramago espera daqueles que lerem esta obra: quando vamos fazer nossa própria revolução de vida, e nos curar de nossa cegueira branca?

O "Ensaio sobre a Cegueira" é um ótimo livro, tanto na técnica utilizada pelo autor para escrevê-lo (parecendo um filme, tamanha a dinâmica do texto), assim como uma obra filosófica, para que pensemos no ser-humano como humano e liberto de sua cegueira coletiva.

- Darini

domingo, 12 de abril de 2009

Charles Bukowsky e Darini sobre a arte de escrever

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Disse o velho safado:

"Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente-a-frente com a morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o palhaço nas trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha..."

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E digo mais: o escrever te faz ser um "deus": você cria e destrói mundos, pessoas, personagens, ideias... o que sai da sua caneta, do seu lápis ou do toque no teclado é como o sopro de inspiração que vai atingir pessoas que você nem conhece. É mágico, é sobrenatural.

Acredito que, SEMPRE, em todas as ocasiões, o escritor coloca sua alma, sua mente à mercê dos leitores. Cabe, sim, a eles, desvendar esses "hieróglifos" da melhor maneira que lhes convier e, por que não, SE lhes convier.

- Darini

terça-feira, 17 de março de 2009

O Apanhador no Campo de Centeio - livro de J. D. Salinger

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Único. Diferente. Provocativo. Forte.

São esses, dentre muitos outros, aqueles adjetivos com que podemos caracterizar a obra “O Apanhador no Campo de Centeio”, em que o escritor norte-americano J.D. Salinger nos conta a peregrinação de Holden Caulfield, um adolescente burguês dos anos 40/50 que é expulso do notório colégio Pencey (o último dentre outros de que já havia saído) e tenta esconder esse fato de seus pais, adiando sua chegada em casa. Na verdade, esse “adiamento” de seu retorno ao lar é que causa toda a peripécia da história e os conflitos vividos por Holden nesse difícil e conturbado período da vida humana.

Durante toda a trama, temos o mundo (ou, mais precisamente, a cidade de Nova Iorque) mostrado de acordo com o ponto de vista de um adolescente. Seus amores, seus ódios, seus conflitos psicológicos... tudo foi escrito de tal maneira que aquele mais desavisado, ao ler a trama, pode mesmo pensar que foi escrito por um jovem da idade de Holden.

A linguagem (dando destaque especial para a tradução1) é simples, as gírias e palavreado sem preocupação normativa, às vezes repetitivos, nos colocam mais próximos do personagem principal, que é o narrador de suas aventuras. Os períodos são curtos e as conjuções parecem ter sido esquecidas em muitos momentos da história, remetendo-nos ao estilo de texto da época surrealista. Provavelmente, a intenção do autor (mantida, felizmente, pelos tradutores) foi de dar ao leitor a sensação de “assistir” à mente do protagonista enquanto as inúmeras ações vão acontecendo. Assim como os pensamentos nos surgem de repente, às vezes sem uma ligação “suave” de um com o outro, da mesma forma é o estilo em que a obra nos é colocada. Outra análise em relação a essa peculiaridade pode ser a de que o escritor nos quisesse mostrar a rapidez como as coisas aconteciam na vida, no falar e na mente do jovem: fato após fato, decisão após decisão.

Os tipos encontrados por Holden no decorrer da história são aqueles estereótipos que encontramos em todos os tempos e em qualquer lugar do mundo: o colega de quarto que pensa ser o “Don Juan” conquistador, o pentelho que mexe nas coisas dos outros sem permissão, o velho professor que ainda se preocupa em dar conselhos aos mais jovens e ficam abismados com a (aparente?) indiferença destes, o motorista de táxi grosseiro, a simpática freira, a prostituta, os cabarés, seus artistas e freqüentadores, as amigas / namoradas com quem vive as dúvidas e conflitos do amor, a família... enfim, em sua caminhada pela grande cidade, o jovem se depara com tipos encontrados por nós mesmos no dia-a-dia, e os comentários que faz destes, unidos aos pensamentos que ele tem, é aquilo que todos nós, de uma forma mais “agressiva” ou não, diríamos ou pensaríamos, se passássemos pelas mesmas situações.

“O Apanhador no Campo de Centeio” causa, naquele que o lê, uma mistura interessante de sensações: tristeza, pena, raiva, compaixão, um pouco de humor e crítica. Crítica a alguns valores enraizados na cultura ocidental como um todo, como a educação: Holden não conseguia se adaptar ao tradicionalismo dos colégios pelos quais passava. Curiosamente, havia passado apenas em inglês, disciplina que, em suas literaturas, requer uma visão maior do mundo, e não apenas a análise literal do escrito pelo escrito.

O jovem protagonista tem uma grande estima e amor pela família, sobretudo por seus irmãos: Phoebe (a mais nova), D.B., o escritor que se “prostituiu” ao aceitar trabalhar em Hollywood e Allie, já falecido, com quem parecia ter uma ligação transcedental. O modo com que esse irmão é citado nos comove, parecendo ser, em certas ocasiões, um “amparo” para o protagonista. Uma das partes mais bonitas e tocantes do livro é aquela em que Holden tem medo de atravessar a rua, pois imaginava-se caindo antes de chegar ao outro lado. Então, dizia ao irmão: “Allie, não me deixa desaparecer” e, ao cumprir sua meta, agradecia-o.

Outro trecho que merece menção é aquele em que o título do livro é mencionado pela 2ª vez. Erroneamente, Holden canta uma música dizendo “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio...” nesse momento, é corrigido por Phoebe, que diz que o certo seria “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio...” O fato é que o jovem imagina-se num enorme campo de centeio, com milhares de crianças correndo, e sua missão seria a de não deixá-los cair no abismo. Ele seria “O Apanhador no Campo de Centeio”, aquilo que realmente queria fazer na vida. Podemos ver essa “cena” como uma metáfora para o que ele buscava: a liberdade. O que parecia um adolescente rebelde “sem causa”, era na verdade alguém que queria se libertar de padrões sociais e regras.

Com um final inesperado (que tem uma ligação interessante com o início da trama), “O Apanhador no Campo de Centeio” é uma obra que merece ser lida, relida e discutida, principalmente pelos elementos psicológicos explorados por Salinger. Contemporânea, ela nos faz pensar em como cultivar nosso próprio “campo de centeio”.


1- A edição lida foi a da Editora do Autor - 13ª edição.

- Darini

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

In Tempore Senectutis - Poema de Ezra Pound

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In Tempore Senectutis


When I am old
I will not have you look apart
From me, into the cold,
Friend of my heart,
Nor be sad in your remembrance
Of the careless, mad-heart semblance
That the wind hath blown away
When I am old.

When I am old
And the white hot wonder-fire
Unto the world seem cold,
My soul's desire
Know you then that all life's shower,
The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

When I am old
If you remember
Any love save what is then
Hearth light unto life's December
Be your joy of past sweet chalices
To know then naught but this
"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."


Em “In Tempore Senectutis”, encontramos um Ezra muito mais “existencial”, falando de um amor quase platônico, mas que nunca fica claro se é dirigido a um homem ou mulher, a uma amizade ou paixão – o verso “Friend of my heart” não pode ser levado como conclusivo para essa afirmação, já que a palavra “friend” pode ser dirigida a um(a) amigo(a) ou namorado(a). A constante repetição de “When I am old” faz uma quebra no poema; quebra que leva o leitor a pensar em sua própria situação de quando a velhice chegar. Cada vez que ele menciona essa frase, é como se nos dissesse: “está chegando... está chegando”.

Alguns momentos, como a passagem “Nor be sad in your remembrance”, nos faz perceber que essa mensagem é dirigida a alguém que, no momento do “When I am old”, ou seja, quando a velhice chegar, estará longe, apenas na lembrança; ou foi feita para quando o próprio autor fosse essa lembrança, e deixa um recado a seu amor para que não se entristeça com as memórias passadas.

O poema tem lindas e profundas metáforas. Vejamos o seguinte trecho:

The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

A “chuva dos anos” (a idade, o passar dos anos) fará nascer uma flor que inclua tudo (ou todas as outras flores), quando estivermos velhos. É possível, nessa passagem, o entendimento de que essa flor nada mais é que o acúmulo de vivência, de amores, de sentimentos, de experiências, de sabedoria... de tudo aquilo que o ser humano adquire com o passar dos anos. Podemos ler isso também como uma meta na vida humana: apenas alguns privilegiados terão essa flor, apenas aqueles que chegarem nesse estágio da vida serão merecedores e contemplados.

Tudo isso para quê? Para um final simples, mas esperado por todos aqueles que amam:

"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."

Quais maravilhas serão menos doces do que o amor que eu carrego por você quando (eu) estiver velho. – ou seja, o ápice do amor não acontece no primeiro namoro, na ilusão mascaradora da juventude, mas sim na velhice, ao termos passado por provações, tentações, problemas desilusões etc. É depois de tudo isso que temos a certeza do sentimento, é quando temos o verdadeiro desabrochar da flor. Reparemos também que o autor não finaliza o poema com uma interrogação, mas deixa a afirmação de que talvez nenhuma maravilha seja mais doce do que esse amor.

- Darini

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mr. Jones - Conto de Truman Capote

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Nas poucas páginas de “Mr. Jones” (um conto que se parece mais com uma crônica), o narrador relata o tempo em que viveu num quarto alugado no bairro do Brooklin. Ele foca a história em seu vizinho, Mr. Jones, que vivia no maior quarto da casa, e de onde o narrador via pessoas de todos os tipos e idades entrando e saindo, mas não sabia o que toda essa gente queria com ele. Cego e aleijado, Mr. Jones não saía de casa, e todas as suas necessidades de consumo eram supridas pelas empregadas daquele lugar. Fossem amigos ou pessoas que pagavam para ouvir seus conselhos, ele acredita que aquele homem era alguém entre um pastor e um terapeuta.

O tempo passou, o narrador muda-se de bairro e um dia volta para pegar alguns livros que deixara em seu quarto. Pergunta a uma das empregadas sobre Mr. Jones, e ela diz que está desaparecido há quase um mês, e que tudo em seu quarto estava intacto, mas ele não estava mais lá. Dez anos se passam, e o narrador está em Moscou, no metrô. Do outro lado do corredor, ele vê um homem que acredita sero antigo vizinho. Ele analisa a fisionomia, tendo certeza de que era ele. Mas, antes de poder atravessar o vagão e ir lhe falar, Mr. Jones levanta-se e sai do trem, tendo as portas fechadas logo atrás dele.

Considerando o período de tempo em que se passa a narrativa (1945-1955), Capote pode ter feito, neste conto, uma referência à guerra fria. Ele nos faz supor que Mr. Jones era, na verdade, um agente em ação nos EUA, assim como o narrador pode ser um agente em missão na então URSS, por isso a referência a estar em Moscou quando do reencontro.

Outro olhar que podemos ter sobre esse final misterioso e inesperado, é que Capote nos mostra que nem tudo aquilo a que somos condicionados a acreditar é verdade. Ao mesmo tempo, também nos remete à pequenez do mundo em que vivemos, e como podemos reencontrar tipos que fizeram parte do nosso passado quando menos esperamos. Esses inesperados reencontros nos fazem descobrir verdades que essas pessoas até então mantinham escondidas.



- Darini

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Lua

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A Lua é como a mulher amada: por vezes, misteriosa; por vezes, mostra-se completamente; por vezes, apenas atiça a imaginação. Em antigas mitologias, era a Deusa. Na Astronomia, um satélite. Para a densa floresta, uma fonte de luz. Para o Poeta, a inspiração. Tudo isso, numa Lua só.

Para o Astrônomo, a Lua é muito menor do que o Sol, do que a Terra, do que os Planetas e do que as Estrelas. É apenas um ínfimo corpo rodeando nosso planeta. Entretanto, para quem a contempla, ela é o maior dos astros da noite. É a rainha celestial, a dama notívaga. Para o casal de namorados, a Lua dá, com sua luz, a esperança de um futuro sem sombras. Para o Poeta, a Lua continua sendo um mistério.

Como cantou o Pink Floyd, é a Lua quem ofusca o Sol: "... and everything under the Sun is in tune; but the Sun is eclipsed by the moon".

- Darini

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Frase da Semana - Amizade

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"Uma relação de amizade entre um homem e uma mulher pode ser tão intensa e forte, que se deterioraria, caso outro tipo de relacionamento entre eles surgisse."
(Darini)

Da série: "coisas que eu gostaria de ter escrito, e escrevi MESMO!"

- Darini

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O medo da morte

Se 90% das religiões pregam que o pós-morte é um "lugar" muito bacana e legal, por que as pessoas (a maioria, pelo menos) têm medo de morrer? Por que não existem suicídios em massa para a tal viagem? Será que:

a- Pelo sim, pelo não, é melhor ficar nesta merda mesmo (convenhamos que deve ser um saco ficar a eternidade de joelhos ouvindo um bando de anjos desafinados cantar);

b- DUVIDAM, bem lá no fundo, que tal lugar exista.

Bingo.

- Darini

A Lua

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A Lua é como a mulher amada: por vezes, misteriosa; por vezes, mostra-se completamente; por vezes, apenas atiça a imaginação. Em antigas mitologias, era a Deusa. Na Astronomia, um satélite. Para a densa floresta, uma fonte de luz. Para o Poeta, a inspiração. Tudo isso, numa Lua só.

Para o Astrônomo, a Lua é muito menor do que o Sol, do que a Terra, do que os Planetas e do que as Estrelas. É apenas um ínfimo corpo rodeando nosso planeta. Entretanto, para quem a contempla, ela é o maior dos astros da noite. É a rainha celestial, a dama notívaga. Para o casal de namorados, a Lua dá, com sua luz, a esperança de um futuro sem sombras. Para o Poeta, a Lua continua sendo um mistério.

Como cantou o Pink Floyd, é a Lua quem ofusca o Sol: "... and everything under the Sun is in tune; but the Sun is eclipsed by the moon".

- Darini

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Sociedade Fantasma

Este é, provavelmente, o período histórico mais estúpido, cretino, artificial, superficial e idiota pelo qual a humanidade já passou. Sejam vocês fãs de videogame ou não, a vida se tornou uma seqüência ininterrupta de apertar botões.

Viramos robôs, macacos adestrados para fazerem outros ganharem dinheiro. Tudo virou "virtual", até a educação. É por isso, talvez, que estamos criando um bando de marginais-mirins aos quais damos o nome de crianças (lindo isso, né!).

O dinheiro virtual é brinquedo do outrora garotinho mimado que hoje é corretor da bolsa de valores. Um bando de criancinhas choronas que virou um bando de "homens" bundões.Conseguem ser mais robôs do que o resto.Tomara (ou não) que o dinheiro ganho seja suficiente para pagar o provável câncer que terão em breve.

Uma sociedade mentirosa, mascarada, corrupta, interesseira... um bando de moralistas lunáticos que mereceriam morrer enforcados com suas próprias línguas. A sociedade do "faz-de-conta".

Faz de conta que você é um jovem dinâmico, empreendedor, com espírito de equipe e liderança, que nós te contratamos!

Faz de conta que você é feliz no casamento, que nós te respeitamos! (Foi obrigado a se casar, né! A sociedade obriga a isso também. Imagina um filho meu, solteiro e com mais de 30 anos em casa! NUNCA!)

Faz de conta que você tem dinheiro, que nós te admiramos!

Ah, só não precisa fazer de conta que sabe apertar botões... todos sabemos fazer isso muito bem!

Juro que queria a seguinte inscrição em minha lápide: "aqui jaz Rodrigo: descrente da sociedade, da família, da religião e de deus. Se fodeu."

- Darini