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sábado, 5 de novembro de 2011

Ler Poemas pode ser complicado

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O maior problema que o povo em geral tem ao ler poemas é "esquecer" o verso anterior ao ler o próximo, sendo que, em boa parte das vezes, os versos podem ser lidos como prosa.

O esquema básico para ler QUALQUER poema é identificar:

- onde seriam colocadas as conjunções / conectivos em geral (se não houver) entre os versos;
- identificar prováveis inversões (fuga do esquema sujeito => verbo => complemento);
- "traduzir" as prováveis figuras de linguagem;
- já saber (ou pesquisar) elementos históricos e/ou mitológicos, como na Divina Comédia ou Os Lusíadas. No caso deste, temos:

Os Lusíadas escreveu:
As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram


Esses 8 versos, acredite você, tem apenas um sujeito: "As armas e os barões assinalados". Ou seja, os complementos estarão (quase que) obrigatoriamente relacionados a ele. Então:

As armas e os barões assinalados passaram além da Taprobana.
As armas e os barões assinalados edificaram.
As armas e os barões assinalados tanto sublimaram.

NESSE CASO, o resto vai ser complemento: advérbios e objetos. Poderíamos, claro, colocar na ordem direta:

As armas e os barões assinalados passaram, da Ocidental praia Lusitana, por mares nunca dantes navegados, ainda além da Taprobana. Esforçados em perigos e guerras, edificaram, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota, um novo reino, que tanto sublimaram.

Viram só?

- Darini

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Metáfora

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A Metáfora é, creio, a maior invenção comunicativa humana. É um modo escondido de dizer uma situação, sentimento ou descrição que parecem claros, uma maneira lógica (!!!) de forçar o raciocínio por códigos, às vezes, difíceis de serem interpretados.

O maior objetivo da Metáfora é o de surpreender o leitor (no caso de um texto escrito). Depois, se muito usada e desgastada, corre o sério risco de cair no limbo maldito dos clichês (ou dos clichês malditos).

A Metáfora pode ser mais elaborada, como pode-se ver neste trecho do Poema "Violões que choram", de Cruz e Souza:

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Em outros casos, a Metáfora pode ser ainda mais difícil, como neste excerto de Garcia Lorca - ("A Selva dos Relógios" - retirado do sítio http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12035 ):

"Os morcegos nascem / das esferas. / E o bezerro os estuda / preocupado. / Quando será o crepúsculo / de todos os relógios? / Quando essas luas brancas / se fundirão aos montões?"

No poema acima, reparem na complexidade das Metáforas utilizadas. Sei pouco sobre o assunto, mas o Surrealismo carrega a ideia de construir / desconstruir, bem como a de estar "fora" do real, ou a de representar elementos oníricos. De qualquer forma, se tentarmos formar essas figuras em nossa mente, teremos criado um acervo imaginário bem interessante.

Por outro lado, há os clichês, que, como disse antes, não deixam de ser Metáforas: "Não sobrará pedra sobre pedra"; "Meus filhos, minha vida"; "Há uma luz no fim do túnel" etc. Eles podem ter tido ar de novidade em alguma época, mas, hoje, lidos em praticamente qualquer contexto, parecem estar escritos em linguagem denotativa, tal é a frequência com que nos deparamos com eles. Não causam mais surpresa ao leitor. Virou chavão, lugar-comum.

E, claro, não podemos ignorar o fato de haver elementos metafóricos na construção de palavras. Se analisarmos Morfemas em geral (mormente as Raízes), perceberemos isso. Por exemplo, na palavra "colaborar", há o Prefixo {co}, que significa junto, e a Raiz {labor}, que significa trabalho. Se alguém pede a "colaboração de todos", esses elementos não ficam explícitos. Talvez, com as palavras do dia a dia, com as Raízes e demais Morfemas aglutinados, a situação que temos é a de "além-clichê". Colaborar, para a maioria de nós, remete à ideia de ajudar. E só.

Outra palavra interessante é "explicar". Nela, há o Prefixo {ex}, significando muito, e a Raiz {plic}, que significa dobrar. É a mesma Raiz presente nas palavras multiplicar, triplicar etc. Traduzindo a palavra através de seus Morfemas, temos algo como "dobrar para fora" - dobrar sua fala, seus exemplos, até que seu interlocutor entenda.

Portanto, seja na formação de palavras, seja na elaboração da mais elaborada poesia, a presença da Metáfora mostra um lado interessante da mente humana: o de associar, fazer comparações, esconder ou disfarçar seus sentimentos e medos.

Não concordava muito com a máxima "O Poeta é um fingidor" de Fernando Pessoa, mas acho que ele tem razão. Todos somos.

- Darini

domingo, 30 de agosto de 2009

Poderoso Timão "admiti"? Admitia!

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Antes de mais nada, esclareço: a) o erro já foi corrigido (em parte); b) não torço para time nenhum (na verdade, odeio futebol). A foto foi tirada com um celular, por isso a definição não está lá essas coisas.

Ao escrever, devemos prestar atenção na Desinência Verbal do verbo com que trabalhamos, pois algumas podem causar dúvidas e/ou induzir ao erro. Neste caso, o digitador assim deve ter pensado: "se nós admit{imos} e o verbo é admit{ir}, então *ele admit{i} - admiti-se". Por analogia, deve ter pensado nos verbos sair (ele sai), cair (ele cai), mas se esqueceu do dormir (ele dorme). Deixou a placa lá por uma semana (ou mais), até que alguém o avisou (provavelmente, um candidato à vaga, que, por sinal, não levou o emprego, pois a nova placa ainda está lá).

Voltando à referência do item a lá em cima, há um fenômeno cujo erro nem mais considera-se como aberração Linguística: a Voz Passiva Sintética, que causa uma confusão considerável em anúncios (principalmente).

Alguns estudiosos dizem que, na cabeça do falante, "Admite-se subgerente e vendedor" não tem nada de Voz Passiva. Ao contrário, essa partícula "se" é o Índice de Indeterminação do Sujeito e o complemento é um Objeto Direto. É até possível perguntar: "Admite-se o quê?" E a resposta: "Subgerente e vendedor".

Entretanto, para a Gramática Normativa (até o momento, a forma oficial), essa estrutura continua sendo considerada a tal da Voz Passiva Sintética. De acordo com essa linha de pensamento, o correto seria "Admitem-se subgerente e vendedor", pois estes dois são o Sujeito Composto da Oração: Subgerente e vendedor são admitidos.

Portanto, em caso de prova, concurso público, elaboração de memorando, cartas comercias e afins, lembre-se: é plural? Use a forma oficial.

- Darini

sábado, 2 de maio de 2009

Ensaio sobre a Cegueira - Livro de José Saramago

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Em seu "Ensaio sobre a Cegueira", Saramago critica o rumo que as coisas tomaram nesta época em que vivemos. A "cegueira branca" que se alastra pela cidade, poupando apenas uma mulher, nos faz refletir sobre os problemas que, para a maioria de nós, passam despercebidos. Por quantas vezes, em nossa rotina "automatizada", não damos atenção, fazemos vistas grossas ou, simplesmente, ignoramos necessidades humanas que nos estão logo à frente? Num tempo em que tudo deve ser rápido, automático e produtivo, o ser-humano está deixando de ser humano. Estamos virando "robôs que comem e respiram". O outro? "Que eu tenho a ver com as necessidades do outro?" Essa é nossa cegueira branca.

Nessa cidade (ou mundo) que criou Saramago, todos são iguais. Não há nomes para os personagens e o modo como o autor os apresenta (através de alguma característica, profissão ou defeito) torna-os mais vivos em nossa memória. Podemos nos esquecer de vários nomes de personagens provenientes de clássicos lidos outrora, mas, com certeza, lembraremos da figura da "mulher do médico", "o velho da venda preta" e, até mesmo, do "cão das lágrimas" por muito tempo, até mesmo pelo fato de serem personagens do dia-a-dia, que podem ser encontrados em qualquer cidade real. A prostituta, o velho, o ladrão, o motorista de táxi, o menino abandonado... são eles que protagonizam o Ensaio. Não são heróis, mas pessoas marginalizadas sobre as quais o autor coloca os holofotes. Ele mostra que elas existem e que podem superar suas dificuldades, principalmente se houver uma mão amiga que os guie (mulher do médico).

A cegueira branca, de certa forma, atinge o leitor. Como pode uma jovem, às vistas da sociedade, apaixonar-se por um homem pobre, defeituoso e que não segue os padrões convencionais de beleza? Durante a leitura, não acreditamos que isso pudesse acontecer, mas o sentimento que nasce entre a rapariga de óculos e o velho da venda preta é maior do que qualquer "convenção" ou interesse superficial que possa surgir no coração humano. É algo profundo e que transcende qualquer estereótipo ou preconceito.

Pessoas do povo que se tornam mais iguais do que nunca, e têm de conviver em comunidade por tempo indeterminado aturando suas diferenças e defeitos. O governo? Este já está cego antes de tudo e de todos, pois fazem o que muitos governantes fazem: eliminam o mal, mas não sua causa. O modo desumano com que os "contaminados" são tratados realmente impressiona: tudo a eles é feito à distância. Um passo em falso, e a morte lhes era certa. O medo daqueles ditos diferentes causa uma celeuma coletiva: "teve contato com um cego? Está condenado!"

Os personagens precisam passar por uma revolução de vida para serem curados de sua cegueira. Provavelmente, é isso que José Saramago espera daqueles que lerem esta obra: quando vamos fazer nossa própria revolução de vida, e nos curar de nossa cegueira branca?

O "Ensaio sobre a Cegueira" é um ótimo livro, tanto na técnica utilizada pelo autor para escrevê-lo (parecendo um filme, tamanha a dinâmica do texto), assim como uma obra filosófica, para que pensemos no ser-humano como humano e liberto de sua cegueira coletiva.

- Darini