sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

In Tempore Senectutis - Poema de Ezra Pound

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In Tempore Senectutis


When I am old
I will not have you look apart
From me, into the cold,
Friend of my heart,
Nor be sad in your remembrance
Of the careless, mad-heart semblance
That the wind hath blown away
When I am old.

When I am old
And the white hot wonder-fire
Unto the world seem cold,
My soul's desire
Know you then that all life's shower,
The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

When I am old
If you remember
Any love save what is then
Hearth light unto life's December
Be your joy of past sweet chalices
To know then naught but this
"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."


Em “In Tempore Senectutis”, encontramos um Ezra muito mais “existencial”, falando de um amor quase platônico, mas que nunca fica claro se é dirigido a um homem ou mulher, a uma amizade ou paixão – o verso “Friend of my heart” não pode ser levado como conclusivo para essa afirmação, já que a palavra “friend” pode ser dirigida a um(a) amigo(a) ou namorado(a). A constante repetição de “When I am old” faz uma quebra no poema; quebra que leva o leitor a pensar em sua própria situação de quando a velhice chegar. Cada vez que ele menciona essa frase, é como se nos dissesse: “está chegando... está chegando”.

Alguns momentos, como a passagem “Nor be sad in your remembrance”, nos faz perceber que essa mensagem é dirigida a alguém que, no momento do “When I am old”, ou seja, quando a velhice chegar, estará longe, apenas na lembrança; ou foi feita para quando o próprio autor fosse essa lembrança, e deixa um recado a seu amor para que não se entristeça com as memórias passadas.

O poema tem lindas e profundas metáforas. Vejamos o seguinte trecho:

The rain of the years, that hour
Shall make blow for us one flower,
Including all, when we are old.

A “chuva dos anos” (a idade, o passar dos anos) fará nascer uma flor que inclua tudo (ou todas as outras flores), quando estivermos velhos. É possível, nessa passagem, o entendimento de que essa flor nada mais é que o acúmulo de vivência, de amores, de sentimentos, de experiências, de sabedoria... de tudo aquilo que o ser humano adquire com o passar dos anos. Podemos ler isso também como uma meta na vida humana: apenas alguns privilegiados terão essa flor, apenas aqueles que chegarem nesse estágio da vida serão merecedores e contemplados.

Tudo isso para quê? Para um final simples, mas esperado por todos aqueles que amam:

"How many wonders are less sweet
Than love I bear to thee
When I am old."

Quais maravilhas serão menos doces do que o amor que eu carrego por você quando (eu) estiver velho. – ou seja, o ápice do amor não acontece no primeiro namoro, na ilusão mascaradora da juventude, mas sim na velhice, ao termos passado por provações, tentações, problemas desilusões etc. É depois de tudo isso que temos a certeza do sentimento, é quando temos o verdadeiro desabrochar da flor. Reparemos também que o autor não finaliza o poema com uma interrogação, mas deixa a afirmação de que talvez nenhuma maravilha seja mais doce do que esse amor.

- Darini

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Um pouco de Raízes e Afixos

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Analisar Raízes e Afixos a partir do Indo-Europeu é como montar um quebra-cabeças lingüístico. É perceber como alguns elementos se tornaram variantes em diferentes Línguas, assim como outros se tornaram comuns, seja em sua ortografia, seja na mudança semântica ocorrida através do espaço geográfico e tempo.

Os primeiros comparativistas buscavam relacionar diferentes Línguas e estabelecer, entre elas, o grau de “parentesco”, assim como classificá-las nos mais diferentes ramos e famílias. Vale ressaltar que os primeiros estudos comparativistas não levam em consideração o aspecto da mudança da Língua no decorrer do tempo. Portanto, o Latim era comparado ao Sânscrito, que poderia ser comparado ao anglo-saxão, mesmo sendo todas elas de períodos históricos diferentes.

Grimm (sim, um dos irmãos escritores de contos infantis), ao contrário de Franz Bopp e seus antecessores, iniciou um estudo comparativo das Línguas no decorrer do tempo. Estudou também o ramo Germânico das Línguas Indo-Européias, o que lhe proporcionou verificar quais mudanças ocorreram com o passar do tempo. Através de suas pesquisas, pôde-se verificar que o fluxo histórico interfere na regularidade dos processos de mudança Lingüística.

Já os Neogramáticos vieram questionar o modo como a Lingüística estava sendo tratada e estudada. Para eles, a Língua era determinada por fatores psicológicos, e defendiam a aproximação da Lingüística Histórica com a Psicologia. Por se tratar a Lingüística de uma ciência, buscavam uma explicação científica para todo e qualquer fenômeno do Idioma, não aceitando que se caracterizassem apenas como “casualidades” deste. O principal benefício à Lingüística trazido pelos Neogramáticos é que, depois deles, os estudos da Língua puderam ser tratados com maior acuidade.

Uma das correntes Lingüísticas é o “biologismo” de Schleicher. Para ele, a Língua era independente do falante, isto é, ela existia obedecendo às leis da natureza, como um elemento da ciência natural. Sendo botânico, influenciaram-no as teorias evolucionistas de Darwin, e preocupou-lhe classificar as Línguas como numa árvore genealógica, buscando familiaridades entre elas. Por outro lado, os neogramáticos acreditavam que a Língua dependia, sim, do falante, e a mudança dela ocorria por conta deste, desencadeando o que chamavam de ação recíproca dos indivíduos, ou seja, a propagação dessas mudanças lingüísticas de falante para falante.


- Darini

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Pinga ni mim...

Que coisa... só por ter tomado uns gorós a mais, o Ministro da Fazenda japonês pediu demissão do cargo! Vejam só:

http://www.youtube.com/watch?v=NEYbs47Ze78


Se a moda pega, hein... era pro Lula nem ter pisado no planalto! :)

- Darini

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Mr. Jones - Conto de Truman Capote

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Nas poucas páginas de “Mr. Jones” (um conto que se parece mais com uma crônica), o narrador relata o tempo em que viveu num quarto alugado no bairro do Brooklin. Ele foca a história em seu vizinho, Mr. Jones, que vivia no maior quarto da casa, e de onde o narrador via pessoas de todos os tipos e idades entrando e saindo, mas não sabia o que toda essa gente queria com ele. Cego e aleijado, Mr. Jones não saía de casa, e todas as suas necessidades de consumo eram supridas pelas empregadas daquele lugar. Fossem amigos ou pessoas que pagavam para ouvir seus conselhos, ele acredita que aquele homem era alguém entre um pastor e um terapeuta.

O tempo passou, o narrador muda-se de bairro e um dia volta para pegar alguns livros que deixara em seu quarto. Pergunta a uma das empregadas sobre Mr. Jones, e ela diz que está desaparecido há quase um mês, e que tudo em seu quarto estava intacto, mas ele não estava mais lá. Dez anos se passam, e o narrador está em Moscou, no metrô. Do outro lado do corredor, ele vê um homem que acredita sero antigo vizinho. Ele analisa a fisionomia, tendo certeza de que era ele. Mas, antes de poder atravessar o vagão e ir lhe falar, Mr. Jones levanta-se e sai do trem, tendo as portas fechadas logo atrás dele.

Considerando o período de tempo em que se passa a narrativa (1945-1955), Capote pode ter feito, neste conto, uma referência à guerra fria. Ele nos faz supor que Mr. Jones era, na verdade, um agente em ação nos EUA, assim como o narrador pode ser um agente em missão na então URSS, por isso a referência a estar em Moscou quando do reencontro.

Outro olhar que podemos ter sobre esse final misterioso e inesperado, é que Capote nos mostra que nem tudo aquilo a que somos condicionados a acreditar é verdade. Ao mesmo tempo, também nos remete à pequenez do mundo em que vivemos, e como podemos reencontrar tipos que fizeram parte do nosso passado quando menos esperamos. Esses inesperados reencontros nos fazem descobrir verdades que essas pessoas até então mantinham escondidas.



- Darini

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Lua

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A Lua é como a mulher amada: por vezes, misteriosa; por vezes, mostra-se completamente; por vezes, apenas atiça a imaginação. Em antigas mitologias, era a Deusa. Na Astronomia, um satélite. Para a densa floresta, uma fonte de luz. Para o Poeta, a inspiração. Tudo isso, numa Lua só.

Para o Astrônomo, a Lua é muito menor do que o Sol, do que a Terra, do que os Planetas e do que as Estrelas. É apenas um ínfimo corpo rodeando nosso planeta. Entretanto, para quem a contempla, ela é o maior dos astros da noite. É a rainha celestial, a dama notívaga. Para o casal de namorados, a Lua dá, com sua luz, a esperança de um futuro sem sombras. Para o Poeta, a Lua continua sendo um mistério.

Como cantou o Pink Floyd, é a Lua quem ofusca o Sol: "... and everything under the Sun is in tune; but the Sun is eclipsed by the moon".

- Darini

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Frase da Semana - Amizade

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"Uma relação de amizade entre um homem e uma mulher pode ser tão intensa e forte, que se deterioraria, caso outro tipo de relacionamento entre eles surgisse."
(Darini)

Da série: "coisas que eu gostaria de ter escrito, e escrevi MESMO!"

- Darini

domingo, 18 de janeiro de 2009

O Manuscrito Voynich

Imagine um texto com cerca de 500 anos de existência e que nunca conseguiu ser traduzido por nenhum dos grandes especialistas em linguística, códigos e criptografia do mundo. Parece ficção, mas esse texto existe: é o chamado "Manuscrito Voynich".

Cercado de histórias e mistérios, esse manuscrito tem por volta de 250 páginas e parece ser um manual de ciências em geral: trata de botânica, do universo... algo totalmente distinto do que se poderia esperar das triviais formas literárias da Idade Média.

Muita gente defende que o manuscrito pode ser fruto de uma brincadeira, um embuste. Se isso fosse verdadeiramente comprovado, só restaria tentar entender o porquê do(s) autor(es) ter(em) feito isso. Será que imaginavam a bagunça que causariam 500 anos depois?

Entretanto, creio que os autores (acredita-se que mais de uma pessoa o escreveu) realmente acreditavam que seus escritos eram tão especiais que os fizeram criar um alfabeto único que fosse apenas entendido por eles. Numa época em que a religião (sempre ela) dava um certo... "trabalho" a quem perseguia o conhecimento, é muito provável que tais descobertas e pensamentos acerca do ser-humano, da natureza e do universo fossem colocadas em segredo por seus autores, já que, convenhamos, ninguém pensaria: "vou escrever algo ininteligível para enganar pessoas das gerações futuras".

Ou será que pensaria?

- Darini

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Eclipse da Lua

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Uma das imagens mais lindas que minha câmera já registrou:



- Darini

sábado, 10 de janeiro de 2009

Frase da semana

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"A guerra é um massacre de homens que não se conhecem em benefício de outros que se conhecem mas não se massacram." (Paul Valéry)

Da série "coisas que eu gostaria de ter escrito, mas alguém passou na frente".

- Darini

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Enquanto isso, no planeta Vhaoejdh...

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ET1: Soldado! Tem analisado os habitantes da Terra?

ET2: Sim, capitão. Entretanto, não entendo algo: por que esses tais de "israelenses" e "palestinos" brigam tanto?

ET1: Desavenças por causa de um livro de mitologias...

- Darini

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O medo da morte

Se 90% das religiões pregam que o pós-morte é um "lugar" muito bacana e legal, por que as pessoas (a maioria, pelo menos) têm medo de morrer? Por que não existem suicídios em massa para a tal viagem? Será que:

a- Pelo sim, pelo não, é melhor ficar nesta merda mesmo (convenhamos que deve ser um saco ficar a eternidade de joelhos ouvindo um bando de anjos desafinados cantar);

b- DUVIDAM, bem lá no fundo, que tal lugar exista.

Bingo.

- Darini

A Lua

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A Lua é como a mulher amada: por vezes, misteriosa; por vezes, mostra-se completamente; por vezes, apenas atiça a imaginação. Em antigas mitologias, era a Deusa. Na Astronomia, um satélite. Para a densa floresta, uma fonte de luz. Para o Poeta, a inspiração. Tudo isso, numa Lua só.

Para o Astrônomo, a Lua é muito menor do que o Sol, do que a Terra, do que os Planetas e do que as Estrelas. É apenas um ínfimo corpo rodeando nosso planeta. Entretanto, para quem a contempla, ela é o maior dos astros da noite. É a rainha celestial, a dama notívaga. Para o casal de namorados, a Lua dá, com sua luz, a esperança de um futuro sem sombras. Para o Poeta, a Lua continua sendo um mistério.

Como cantou o Pink Floyd, é a Lua quem ofusca o Sol: "... and everything under the Sun is in tune; but the Sun is eclipsed by the moon".

- Darini

domingo, 28 de dezembro de 2008

Fora de meu Mundo

Um dia, eu acordei... e vi que tudo estava diferente. Eu me vi num lugar estranho, com seres completamente diferentes de mim, ou de qualquer outro que vivesse em meu mundo. À primeira tentativa de comunicação, vi que nossos hábitos eram muito semelhantes aos daqueles seres e que os sentimentos escondidos que eles carregavam em si poderiam torná-los perigosos à minha sobrevivência.

Um planeta tão belo... tão sofisticado... mas com seres que não o mereciam; muito pelo contrário: mereciam-se uns aos outros pelos seus atos que, à primeira vista, pareciam uniformes e sincronizados, mas, por detrás, eram capazes de uma destruição tamanha e sem volta. Aos poucos eles eram forçados, pelo próprio planeta, a exterminarem uns aos outros. Sem perceber o que se passava, eles obedeciam àquelas ordens subliminares que lhes eram impostas, e nem sequer tinham chance de decidir se estavam fazendo a coisa certa ou não. Apenas faziam. Eu mesmo vi vários deles se degladiando. Vi vários deles se suicidando. Vi brigas injustas: três, quatro, ou mais, contra apenas um, e a morte deste já estava anunciada.

Às vezes, eu me perguntava o porquê daquilo. Como podia ser tão diferente? Ou a indiferença deles é que me tornava assim? E por que agiam dessa forma, sem noção nenhuma das consequências? Quanto mais eu me perguntava, mais dúvidas me surgiam... e mais amarguras me eram expostas.

A cada dia, eu me sentia mais sufocado, como se um pedaço de mim tivesse sido cortado e queimado, mas comigo sentindo isso. Foi quando eu percebi que já fazia parte "deles". Eu havia me tornado um deles, embora minha mente lutasse contra isso. Então tomei a decisão: subi no mais alto monte daquele planeta, muito maior do que qualquer um do nosso. E gritei. De dor e de medo, talvez. Então dei uma última olhada naquele lugar, em volta de mim e, sem pensar duas vezes, eu pulei daquele monte. Finalmente estava sentindo a sensação de liberdade de novo... e como aquilo era bom... nada mais atrapalhava a minha mente, eu estava me sentindo feliz. Eu caía a uma velocidade incrível e via tudo aquilo pela última vez, não fazendo questão de uma segunda olhada. O chão se aproximou cada vez mais... cada vez mais, quando de repente vi que começava a voar. Não conseguia controlar minha direção, meu rumo, mas eu estava voando e fui levado para longe de lá, finalmente para o mundo de onde eu vim. Ou para qualquer outro, que não fosse mais aquele.

- Darini

domingo, 21 de dezembro de 2008

Sobre a Arte de Viajar



A foto acima, tirei em uma manhã em Salzburg, na Áustria. Não por acaso, chamo-a de "Uma Manhã em Salzburg". É, provavelmente, em minha modesta opinião, a foto mais bonita que consegui tirar na vida. Era inverno, eu estava sozinho passeando pela cidade (umas 08:00-08:30 da manhã), vi a cena e pensei: "Essa vai pro negativo".

Viajar é um vício. Um bom vício, diga-se de passagem. Você não gasta dinheiro viajando; você INVESTE dinheiro viajando, seja qual for a situação, seja qual o lugar de seu destino. As memórias ficarão em você para sempre (gostando ou não da viagem, pois tudo servirá de experiência para a(s) próxima(s). A expectativa do "pré-viagem" é a mesma daquela do início de namoro, antes do primeiro beijo.

Uma grande aula. É isso que deveria ser o ato de viajar. Ao mesmo tempo, é uma arte. As (possíveis) frustações e desencontros te fazem procurar por alternativas para que seu investimento não seja uma catástrofe. E, acredite, existe algo dentro de nós que faz com que consigamos reverter essas situações e aproveitemos o que há de bom nelas.

A saudade do que fica e a esperança de um dia voltar são sentimentos únicos. As pessoas que encontramos e nunca mais veremos, a não ser em nossas memórias, são como personagens de um velho filme, cuja única cópia em rolo se deteriou e não pode mais ser resgatada, a não ser em nossa mente. As "pendências" de viagem são uma desculpa para viver novamente o filme, mas, dessa vez, com personagens diferentes. O aprendizado da cultura local, seja qual for o lugar ao qual se viaja, é inevitável. Ainda bem.


- Darini

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Crônica de Raul

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- Rauuuuul!
- Raul?
- Rau...
- Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuulllllllllllllllllllllllllll!
- Ra...
- ul...
- Rauuuuul...

É minha gata no cio.

- Darini

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Sobre Putas, Bocetas e Caralhos

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A semântica do palavrão é uma questão muito mais "cultural-pseudo-moralista" do que, propriamente, lingüística. Palavras que, no passado, eram um tanto quanto ofensivas, hoje, podem não ser (e vice-versa, claro).

Por exemplo: numa discussão, caso chamemos alguém de histrião, é provável que o ser a quem direcionamos nossa "ofensa" não faça a mínima idéia do que está sendo chamado. Entretanto, trata-se da raiz {histr}, que significa "bobo", "palhaço". É uma palavra ofensiva? Não, pois praticamente NINGUÉM sabe de sua existência. Foi ofensiva um dia? Quem sabe...

== Sobre Putas, Bocetas e Caralhos ==

Da mesma forma, adianta chamar alguém de tolo? Creio que não haveria muita força na ofensa, e causaríamos até riso na pessoa a ser ofendida. Ou seja, uma palavra só é ofensiva, se tal conceito, a ela, for atribuído por determinada sociedade. Por exemplo: no latim, o verbo putare veio a ser o que chamamos de computar. O sufixo {com}, significando "junto", apareceu mais tarde. Portanto, quando um romano falava "ele computa", dizia apenas puta. Hoje, a palavra puta tem outro significado, mas nada a ver com o putare latino e suas variações. A raiz de sua origem é {putr} (também latina), mas significa "decomposto" (originou podre, pútrido) como "depravada" (originando puta).

Com caralho, acontece a mesma coisa. Pelo dicionário Michaelis, temos:

caralho - sm (lat *caraculu, pequena estaca)

É a raiz {cara}, a que foi adicionado o sufixo {culu}, indicando diminuição (o mesmo que ocorre em vermiculu - vermezinho, que deu origem ao nosso "vermelho"). Uma rápida pesquisa num dicionário de latim, e achamos as seguintes variações:

- Cara: uma planta e sua raiz, que, misturada com leite, mitiga a fome.
- Chara: espécie de couve.
- Characatus: cepa empada com canas grossas.
- Characias: erva; espécie de cana grossa.

Tantas evidências mostram que as raízes {car} e {char} têm uma ligação clara com plantas, caules e ervas. Ora, tratando-se do genital masculino, era óbvio que se fizesse uma ligação, tanto pela forma, como pela função (até semente sai dele!), surgindo o caralho.

Todavia, não sejamos machistas! Contemplemos a boceta. Eça de Queirós já escrevera em seu "Primo Basílio":

"Mas então era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta! Mas não! Iam a uma quinta."

Que absurdo escrever "boceta" num romance, não? NÃO! Essa palavra significa caixa pequena e tem a mesma raiz do inglês box e do francês boîte. Portanto, "abafar numa boceta" era ficar preso num lugar quente, fechado e pequeno. Por algum motivo (óbvio?) é que a palavra foi ligada ao genital feminino...

== Sobre o olho cego ==

Se, numa discussão, alguém fosse pego gritando: "Vá tomar no procto!", é provável que os interlocutores tivessem pena do irritado em questão, pois "nem xingar ele sabe!" - pensariam. Mas, não! Ele apenas usou a raiz grega {proct}, que significa ânus, em vez da latina {cul}, que significa nádegas e foi adotada vastamente pelo mundo das línguas Neolatinas (Port. cu; Esp. culo; Ital. culo). Aliás, culatra e recuar vieram dessa mesma raiz, além de outras palavras consideradas "normais".

Com mais pesquisa, seria possível colocar mais uma meia-dúzia de exemplos aqui. Pode-se perceber que os motivos conceituais que tornaram as palavras boceta, caralho e puta palavrões (por enquanto) são os mesmos que tornaram as palavras deus, sacramento e santo bem quistas: sociedade + cultura + (pseudo)moralismo.

- Darini

Bibliografia:

- Dicionário online Michaelis Escolar;

- CRETELLA Jr, Fernando; CINTRA, Geraldo de Ulhôa. Dicionário Latino-Português. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950;

- FERNANDES JR. A. Dialética da Língua Portuguesa. 1ª ed. São Paulo: LivroPronto, 2007.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Cursos de Formação de Semi-deuses

Segue notícia tirada do sítio da Universidade Estadual de Londrina:

O Conselho Universitário da UEL aprovou agora de manhã uma moção de repúdio contra a conduta de um grupo de formandos de Medicina, no último dia 20 de novembro, nos corredores do Pronto Socorro e interior do Hospital Universitário. Os alunos comemoravam o fim do internato e, segundo relatos apurados pela auditoria interna, transferiram a festa para o HU.

O reitor Wilmar Marçal oficializou hoje ao CU a suspensão da colação de grau de 14 formandos do curso identificados e a abertura de Processo Administrativo Disciplinar para averiguar fatos e todos os envolvidos. A formatura fica suspensa até a conclusão dos trabalhos da comissão, que tem 90 dias para apresentar um relatório.

A formatura dos outros estudantes (são cerca de 80) marcada para esta sexta-feira (12/12), a partir das 20h30, no Ginásio João Santana, no Centro de Educação Física e Esportes da UEL.

Coordenadoria de Comunicação Social da UEL

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Eu me pergunto como alguns cursos universitários parecem atrair gente (se é que podemos chamar isso de gente) que se sente acima do bem e do mal e acha-se no direito de fazer o que bem entende. Nome aos bois: Medicina, Direito e Engenharia (em sua maioria, pois nunca li uma notícia do tipo "Estudantes de Filosofia jogam matam colega afogado em festa").

Alguns serem entram nesses cursos achando que são semi-deuses. Pude ver isso na universidade em que estudei: o reitor suspendeu a colação de grau dos alunos de Direito (em 2006) depois de uma baderna feita por eles nos corredores da faculdade, e que resultou na quebra de um elevador. Será que pediram pro papai pagar a conta?

Esse é o grande problema: a criancinha mimada é tratada como um nobre pelos pais incompetentes, mas, quando sai "ao mundo", pensa que todos têm de lhe servir de mordomo... sente-se superior a todos e a tudo. Aí, esse tipo de coisa acontece: desrespeito a quem não tem nada a ver com a criação irresponsavel de um bando de marginais travestidos de médicos.

Parabéns, papais e mamães!

- Darini

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Tu ou Você?

Esse, eu recebi no email. Segue texto "ipsis verbis":

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O Diretor Geral de um Banco estava preocupado com um jovem e brilhante Diretor,que depois de ter trabalhado durante algum tempo com ele, sem parar nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Então o Diretor Geral do Banco, chamou um detetive e disse-lhe:
- Siga o Diretor Lopes durante uma semana, durante o horário de almoço.
O detetive, após cumprir o que lhe havia sido pedido, voltou e informou:
-O Diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o seu carro, vai a sua casa almoçar, faz amor com a sua mulher, fuma um dos seus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho.
Responde o Diretor Geral:
-Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso.
Logo em seguida o detetive pergunta:
-Desculpe. Posso tratá-lo por tu?
-Sim, claro! - respondeu o Diretor surpreendido!
Bom então vou repetir:
-O Diretor Lopes sai normalmente ao meio-dia, pega o teu carro, vai a tua casa almoçar, faz amor com a tua mulher, fuma um dos teus excelentes charutos cubanos e regressa ao trabalho...Entendeu agora?


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É bem provável que a origem do texto acima seja lusitana. Lá, você é um pronome de tratamento respeitoso (como falamos "o senhor" ou "a senhora" no Brasil). Todavia, assim como nós, o vós deles já se foi há muito.

Brincando de adivinhar o futuro, vejamos como seria as pessoas do discurso daqui a alguns anos:

Eu
Você
Ele / Ela
Nóis ou A Gente
Vocês
Eles / Elas

Cai por terra uma teoria que, às vezes, lemos: a de que as palavras mais usadas por uma sociedade mudariam menos. Ora, são pronomes pessoais, não? Eram pouco usados? NÃO!

Essa mudança não é exclusividade nossa: no Latim, por exemplo, não havia a 3a. pessoa. Usava-se o pronome "aquilo" / "aquele(a)": ille. Essa palavra é que veio a originar, nas línguas Neolatinas, as seguintes: ele, ela (Português); il, la, lei, lui (Italiano); lo, la, el (Espanhol); il, elle, le, la (Francês) etc.

Mesmo no inglês, os arcaicos thou e ye saíram de moda há muito tempo, dando lugar ao "you" (singular e plural). Aliás, para evitar maiores confusões na comunicação, muita gente usa o "you all" quando se refere a mais de uma pessoa. Esse recurso dá maior exatidão à comunicação.

Voltando ao texto, nota-se que, no Português do Brasil, os pronomes seu / sua acaba sendo substituindo por dele / dela - justamente para que se evite a ambigüidade no entendimento, causa principal do humor da história. Mas, no nosso caso, o "seu" relacionado à terceira pessoa pode ser entendido como sendo relacionado à segunda. "Dormi com sua mulher" pode dar uma confusão...

- Darini

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

A Letra Escarlate - Livro de Nathaniel Hawthorne

Em "A Letra Escarlate", Nathaniel Hawthorne mostra as desventuras de Hester Prynne na cidade de Boston, nos Estados Unidos do século XVII. Numa sociedade dominada essencialmente por puritanos, a protagonista da história sofre um julgamento. O crime: teve uma filha, mesmo sendo uma mulher sem marido. Pressionada várias vezes pelos magistrados, e por uma última vez, pelo seu pastor pessoal, Mr. Dimmesdale, ela se recusa a dizer o nome do pai da criança.

Como pena para esse "pecado", Hester deveria usar, em sua roupa, uma letra "A" (de adultério) de cor vermelha. Nos primeiros dias, ela deveria permanecer sobre um tablado com sua filha aos braços por longas três horas e, em outro período do dia, ficaria na prisão. Tudo para que servisse de exemplo às pessoas que caíssem na tentação da carne.

O autor nos mostra como o fanatismo religioso pode ser perigoso; quando os magistrados anunciam a sentença publicamente, algumas pessoas da cidade se revoltam, pois a consideram muito branda. Uma delas diz que se deveria queimar-lhe toda a fronte com a letra "A", um castigo até leve para quem costumava queimar e afogar "bruxas". Hester cria sua filha sozinha, sofrendo o desprezo daqueles que a consideravam pecadora. Vemos como gastavam-se tempo e energia perseguindo aqueles que não se comportavam de acordo com os padrões morais e comportamentais estabelecidos na época. Perseguiam, julgavam e discriminavam conforme suas crendices e o que achavam correto. Não tinham respeito pelo diferente. Esse lado do isolamento pelo qual tais pessoas passavam fica bem explícito na obra.

Um dia, na prisão, sua filha passou mal e foi-lhe chamado um médico chamado Roger Chillingworth, recém-chegado a Boston. Quando este adentra ao local, a mulher tem uma surpresa: tratava-se de seu ex-marido, que prometia vingança contra aquele por quem Hester se apaixonara. Ele pede à ex-mulher que mantenha esse segredo, pois não ficaria bem a ele ser apontado na cidade como um homem traído. Caso ela não mantivesse esse segredo, ele destruiria a vida daquele que ela amava perante a sociedade.

O tempo passa, Dimmesdale e Roger Chillingworth tornam-se amigos e vão morar na mesma casa. Isso acontece, pois a saúde do jovem pastor mostrou-se frágil, portanto, foi-lhe aconselhado a ficar perto do médico para que este zelasse por sua saúde.

Hawthorne descreve com primor os tipos; quando fala do ódio de Chillingworth, o leitor é capaz de percebê-lo. Em alguns momentos, sentimos "raiva" de Hester por não abandonar aquele local de sofrimento e partir para uma vida nova. Sofremos e sentimos seu isolamento, o modo como a maltratam nos traz à reflexão nossos preconceitos e discriminações do dia-a-dia. Todos nós temos uma Hester Prynne a quem julgamos, isolamos e maltratamos, apenas por ser diferente, por pensar diferente ou por agir diferente.

No decorrer da história, o (re)encontro entre Hester e o Reverendo Dimmesdale é inevitável. Após os acertos de uma fuga à "Romeu e Julieta", em que fariam o caminho oposto partindo rumo à Inglaterra, descobrem que Chillinworth faria a mesma viagem, estragando, dessa forma, seus planos.

A amargura do segredo tomava cada vez mais conta do coração do jovem pastor. Queria se livrar daquele sentimento como que num grito. Ele sobe ao tablado em que, outrora, sua amada e sua filha foram colocadas para que a primeira pagasse por seu pecado, leva as duas consigo e, para toda a cidade, confessa ter sido aquele que "pecou" com Hester. Talvez aliviado por tamanho peso, ou sentindo a decepção daquela gente, ele morre aos braços de sua amada Hester. Chillingworth morre pouco tempo depois, e mãe e filha partem à Inglaterra, pois o reverendo lhes havia deixado uma herança. Anos depois, Hester volta para passar seus últimos dias no lugar em que tudo havia acontecido.

Vemos como a preocupação em manter a "máscara social" numa sociedade pode ser maligna a uma pessoa. O afã em querer manter as aparências e as conseqüentes mentiras podem destruir vidas, futuros e sonhos. O final dado à história pelo autor é, de certa forma, uma punição àqueles que cometeram os atos questionáveis (Chillinworth e Dimmesdale) e um "prêmio" a quem sofreu com voz calada toda a trama (Hester e Pearl). Mais uma vez, isso nos remete à reflexão, pois, em nossas vidas, ao contrário da ficção, nem sempre aqueles que causam a destruição de outros têm o devido castigo. Cabe a nós agirmos conforme nossa consciência para que não sigamos caminhos semelhantes aos deles.

- Darini

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O país da malandragem.

O Brasil é o país dos malandros e da malandragem. Pena que,
apesar de malandros, são burros, pois não saímos do 3º mundo.
Isso prova que malandragem e esperteza não são, necessariamente,
aliadas da inteligência.

É gente que acha muita vantagem furar uma fila pra conseguir sentar
no ônibus ou metrô; levar o troco a mais que o comerciante deu; não
devolver um item a mais entregue pelas americanas da vida... é
o "jeitinho brasileiro", amplamente difundido e até mesmo estimulado
por essa midiazinha de merda que temos.

Mas não se preocupe! Nem tudo está perdido! A Copa do Mundo vem aí e
o Brasil vai ser hexa! Isso é o que importa pra esse tipo de gente. Mais nada.

-Darini